Últimas

A crise do Cerrado em revisão: – 10. O valor da sustentabilidade do Cerrado e a necessidade de ação

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside


Garantir a sustentabilidade do Cerrado exige a mobilização do conhecimento em todo o diversificado panorama socioeconômico do Brasil, especialmente entre aqueles que habitam ou dependem diretamente desse ecossistema [1, 2]. Promover uma compreensão mais profunda de sua importância ecológica ajuda a desmantelar a concepção errônea de que apenas áreas densamente florestadas são ambientalmente valiosas [3, 4]. À medida que os cidadãos se tornam mais informados, eles se empoderam para defender a proteção do Cerrado e responsabilizar os formuladores de políticas, particularmente aqueles com interesses na exploração intensiva [5]. Exemplos concretos de desastres ambientais, como o desastre da mina de Mariana em 2015 e os desastres de mineração de Brumadinho em 2019, nomeados em homenagem aos municípios onde ocorreram (embora seus impactos tenham se estendido muito além desses municípios), ilustram as consequências da governança inadequada e destacam a necessidade urgente de uma fiscalização ambiental mais rigorosa [6]. Fundamentada tanto em evidências científicas quanto no conhecimento tradicional, essa crescente consciência cívica fornece a base para um modelo de desenvolvimento alternativo enraizado na integridade ecológica e na resiliência a longo prazo [7, 8].

Nesse contexto, uma estratégia fundamental é a transição de uma lógica econômica extrativista para uma regenerativa, adotando uma abordagem de “valor sobre volume” para os sistemas produtivos do Cerrado. Isso implica não apenas aprimorar a eficiência das práticas agrícolas existentes, mas também conter decisivamente a expansão da pecuária extensiva e das monoculturas de soja em larga escala, que continuam sendo os principais motores do desmatamento e da degradação ecológica do Cerrado [9]. Para tornar essa transição mais operacional, sugerimos modelos que podem orientar projetos de conservação no Cerrado. Esses modelos incluem: (i) programas de restauração comunitária que integram o conhecimento ecológico local ao monitoramento científico; (ii) cadeias produtivas cooperativas centradas na biodiversidade nativa, onde as comunidades gerenciam coletivamente a colheita, o processamento e a certificação; (iii) sistemas agro-silvopastoris regenerativos que reintroduzem espécies nativas em paisagens produtivas; e (iv) arranjos de governança territorial que combinam corredores ecológicos, práticas de manejo indígena e mosaicos de uso sustentável. Em vez desses modelos, os esforços devem priorizar a restauração ecológica e o aumento do valor dos recursos nativos do Cerrado por meio de alternativas mais sustentáveis, como produtos certificados de alta qualidade, incluindo frutas, sementes, raízes, cascas, resinas e óleos, mel e própolis não convencionais, e pagamentos por serviços ecossistêmicos [10]. O Cerrado pode se reposicionar como um exemplo global de transição equitativa no uso da terra, que concilia natureza, economia e justiça social em um futuro resiliente às mudanças climáticas [11].

Por fim, é essencial resgatar o próprio significado de “desenvolvimento sustentável” [12]. Ele vai muito além do marketing verde ou do paisagismo ornamental — trata-se de preservação, restauração e criação de alternativas viáveis ao uso destrutivo da terra [13]. Não significa expandir monoculturas ou pavimentar ecossistemas em nome do progresso, como se vê na proliferação de plantações de soja ou na urbanização desenfreada de antigas pastagens sob o pretexto de bairros “ecológicos”. Em vez disso, requer uma reorientação estrutural: recuperar áreas degradadas, investir em economias baseadas na natureza e empoderar as comunidades para liderar a gestão de seus territórios. Isso inclui não apenas os povos indígenas, mas também outras comunidades tradicionais, como os quilombolas e os geraizeiros, cujas práticas apoiam a conservação da biodiversidade. Esses grupos desempenham papéis fundamentais na manutenção da biodiversidade, incluindo a conservação do pequi, o comércio de plantas ornamentais como a sempre vivae as redes de uso sustentável [14]. Para que essa mudança se concretize plenamente, a conservação deve ser incentivada por meio da colaboração nacional e internacional [15, 16].

No Brasil, mecanismos como o ICMS Ecológico (Imposto sobre Valor Agregado Ecológico, uma política fiscal que redistribui parte do imposto estadual sobre vendas para os municípios com base em seus esforços para proteger e conservar áreas naturais) oferecem incentivos fiscais aos municípios que protegem áreas naturais, recompensando financeiramente os governos locais pela manutenção e restauração de ecossistemas nativos, fortalecendo, assim, os esforços locais de conservação. Sistemas de certificação de produtos — como o Forest Stewardship Council (FSC), a Rainforest Alliance e a Union for Ethical BioTrade — também podem proporcionar recompensas financeiras e acesso ao mercado. A experiência em negócios é vital nos estágios iniciais para auxiliar as comunidades na formação de cooperativas e na logística de comercialização, garantindo que os benefícios sejam retidos localmente [17, 18]. Créditos de carbono que reconheçam a biomassa de raízes profundas do Cerrado podem se tornar outra fonte de renda, mas isso depende de arranjos institucionais ainda não definidos para evitar abusos, fraudes e contabilização irrealista dos benefícios de carbono [19, 20]. Devemos também defender pagamentos por serviços ambientais, como o fornecimento de água, bem como apoiar o pagamento de créditos de carbono a territórios indígenas para garantir sua sobrevivência e a manutenção de suas terras. O Cerrado deve ocupar um lugar de destaque na agenda global de sustentabilidade, tornando seu papel crucial na regulação climática e na biodiversidade impossível de ser ignorado. Por meio de maior conscientização e alianças estratégicas, podemos desenvolver abordagens de conservação que harmonizem a integridade ecológica com a equidade social. [21]

Conclusões

Concluímos que a conservação do Cerrado exige o pleno reconhecimento de sua extraordinária biodiversidade, complexidade ecológica, valor sociocultural e papel fundamental na regulação do clima brasileiro. Essa preservação depende de ações que vão muito além do mero reforço de políticas existentes: é necessário reformular os marcos legais, ampliar significativamente o número e o escopo das Unidades de Conservação, gerir adequadamente as áreas de produção, assegurar a efetividade das políticas públicas, valorizar o conhecimento tradicional e fomentar economias regenerativas que respeitem os limites ecológicos do território. O Cerrado não pode mais ser visto como mera fronteira agrícola ou “reserva de expansão”. Trata-se de um sistema vivo, essencial para a estabilidade ambiental nacional e global. A manutenção de seus ecossistemas e da biodiversidade associada é pré-requisito para o enfrentamento das crises contemporâneas relacionadas ao clima, à água e à alimentação, bem como às questões sociais e éticas. As soluções futuras devem integrar ciência, governança participativa e justiça socioambiental, promovendo um modelo de desenvolvimento ancorado na proteção da vegetação original remanescente, seguida da restauração das áreas degradadas. Esse modelo de desenvolvimento deve incluir a distribuição equitativa de recursos e a corresponsabilidade entre o Estado, a sociedade civil e o setor produtivo. O fortalecimento das redes de pesquisa, monitoramento, educação ambiental e iniciativas comunitárias será crucial para transformar o conhecimento em ações transformadoras. Reforçamos a urgência de reposicionar o Cerrado no centro da agenda ambiental e reconhecer que garantir sua continuidade significa também assegurar que a biodiversidade do Cerrado continue a contribuir vigorosamente para o equilíbrio ambiental do planeta e para a construção de um futuro mais justo, resiliente e diverso.


Notas

[1] Klink CA, Machado RB (2005) Conservation of the Brazilian Cerrado. Conservation Biology 19: 707–713.

[2] Bennett NJ, Roth R, Klain SC, Chan K, Christie P, Clark DA, Cullman G, Curran D, Durbin TJ, Epstein G, Greenberg A, Nelson MP, Sandlos J, Stedman R, Teel TL, Thomas R, Veríssimo D, Wyborn C (2017) Conservation social science: Understanding and integrating human dimensions to improve conservation. Biological Conservation 205: 93–108.

[3] Overbeck GE, Vélez‐Martin E, Scarano FR, Lewinsohn TM, Fonseca CR, Meyer ST, Müller SC, Ceotto P, Dadalt L, Durigan G, Ganade G, Gossner MM, Guadagnin DL, Lorenzen K, Jacobi CM, Weisser WW, Pillar VD (2015) Conservation in Brazil needs to include non‐forest ecosystems. Diversity & Distributions21: 1455–1460.

[4] Silveira FAO (2025) Seven ways to prevent biomism. Ambio 54: 1491–1495.

[5] Rajão R, Soares-Filho B, Nunes F, Börner J, Machado L, Assis D, Oliveira A, Pinto L, Ribeiro V, Rausch L, Gibbs H, Figueira D (2020) The rotten apples of Brazil’s agribusiness. Science 369: 246–248.

[6] Pereira CC, Fernandes S, Fernandes GW, Goulart FF (2024c) Eight years after the Fundão tailings dam collapse: Chaos on the muddy banks. Nature Conservation 56: 77–82.

[7] Strassburg BBN, Latawiec AE, Barioni LG, Nobre CA, Da Silva VP, Valentim JF, Vianna M, Assad ED (2014) When enough should be enough: Improving the use of current agricultural lands could meet production demands and spare natural habitats in Brazil. Global Environmental Change 28: 84–97.

[8] Strassburg BBN, Brooks T, Feltran-Barbieri R, Iribarrem A, Crouzeilles R, Loyola R, Latawiec AE, Oliveira Filho FJB, Scaramuzza CADM, Scarano FR, Soares-Filho B, Balmford A (2017) Moment of truth for the Cerrado hotspot. Nature Ecology & Evolution 1: 0099.

[9] Pereira CC, Kenedy-Siqueira W, Negreiros D, Fernandes S, Barbosa M, Goulart FF, Athayde S, Wolf C, Harrison IJ, Betts MG, Powers JS, Dirzo R, Ripple WJ, Fearnside PM, Fernandes GW (2024b) Scientists’ warning: Six key points where biodiversity can improve climate change mitigation. BioScience 74: 315–318.

[10] Lambin EF, Gibbs HK, Heilmayr R, Carlson KM, Fleck LC, Garrett RD, Le Polain De Waroux Y, McDermott CL, McLaughlin D, Newton P, Nolte C, Pacheco P, Rausch LL, Streck C, Thorlakson T, Walker NF (2018) The role of supply-chain initiatives in reducing deforestation. Nature Climate Change 8: 109–116.

[11] Ripple WJ, Wolf C, Gregg JW, Rockström J, Mann ME, Oreskes N, Lenton TM, Rahmstorf S, Newsome TM, Xu C, Svenning J-C, Pereira CC, Law BE, Crowther TW (2024) The 2024 state of the climate report: Perilous times on planet Earth. BioScience 74: 812–824.

[12] Fearnside PM (2023) South American natural ecosystems, status of. In: Scheiner SM (Ed) Reference Module in Life Sciences. Elsevier, Amsterdam, Paises Baixos. p. 158-176. h

[13] Parris TM, Kates RW (2003) Characterizing and measuring sustainable development. Annual Review of Environment and Resources28: 559–586.

[14] da Silva EC, Guerrero-Moreno MA, Oliveira FA, Juen L, de Carvalho FG, Barbosa Oliveira-Junior JM (2025) The importance of traditional communities in biodiversity conservation. Biodiversity and Conservation 34: 685–714.

[15] Latrubesse EM, Arima E, Ferreira ME, Nogueira SH, Wittmann F, Dias MS, Dagosta FCP, Bayer M (2019) Fostering water resource governance and conservation in the Brazilian Cerrado biome. Conservation Science and Practice 1: e77.

[16] Pereira CC, Fernandes GW, Negreiros D, Kenedy- Siqueira W, Fernandes S, Fearnside PM (2023) Hope for funding biodiversity efforts. Science 382: 383–384.

[17] Ajates Gonzalez R (2017) Going back to go forwards? From multi-stakeholder cooperatihttps://doi.org/10.1016/j.jrurstud.2017.02.018

[18] Natura & Co (2020) Natura’s 2030 Sustainability Vision: Commitment to Life. Natura SV.

[19] Fearnside PM (2012) Brazil’s Amazon Forest in mitigating global warming: Unresolved controversies. Climate Policy 12(1): 70–81. 1

[20] West TAP, Bomfim B, Haya BK (2024) Methodological issues with deforestation baselines compromise the integrity of carbon offsets from REDD+. Global Environmental Change 87: 102863.

[21] Este texto é traduzido de: Pereira, C.C., W. Kenedy-Siqueira, L.R. Maia, V.F. Sperandei, L. Arantes-Garcia, S. Fernandes, G.F.C. Fernandes, G.C. de Castro, D.J. Rodrigues, R. Salm & P.M. Fearnside. 2026. The Cerrado crisis review: highlighting t Supplementary material.


Sobre os autores

Cássio Cardoso Pereira é doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Ecologia pela Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), e graduado em Ciências Biológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atua como docente colaborador e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGE) da UFSJ. Possui reconhecimento da Web of Science em 2025 pela autoria de 25 publicações científicas como primeiro autor, todas alcançadas até o primeiro ano após a obtenção do título de doutor em Ecologia, como cientista em início de carreira. Atualmente, é editor de área das revistas científicas BioScience (IF = 8.4), Biotropica (IF = 1.7), e Nature Conservation (IF = 1.7). Seus principais interesses de pesquisa incluem conservação da biodiversidade, fenologia, fitossociologia, interações entre artrópodes e plantas, e mudanças climáticas. Para mais informações, acesse: https://cassiocardosopereira.com”

Walisson Kenedy Siqueira possui graduação e mestrado ciências biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros em doutor em ecologia, manejo e conservação da vida silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É integrante do Laboratório de Ecologia, Evolução e Biodiversidade da UFMG e do Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução. Tem experiência na área ecologia de comunidades, interação inseto-planta e ecologia de sementes.

Lara Ribeiro Maia é Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Sabará e atualmente é Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse na área de ecologia, animais silvestres, educação ambiental, impactos ambientais e micologia.

Vinícius da Fontoura Sperandei possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João del Rei, mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de São João del Rei e doutorado em Ciências pelo Programa em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é professor da Universidade de Rio Verde. Suas pesquisas são na área de Ecologia, principalmente sobre herpetofauna e ecologia subterrânea.

Lucas Arantes-Garcia possui graduação em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente está na Escola de Ciências e Meio Ambiente, Memorial University of Newfoundland, Corner Brook, NL, Canadá. Possui interesse em invasões biológicas, serviços ecossistêmicos, valoração ambiental, mudanças globais e interações inseto-planta.

Stephannie Fernandes é aluna de doutorado na Florida International University, Miami, FL, E.U.A. As suas pesquisas estão na área de ecologia política, visando descobrir como os arranjos institucionais e as diferentes partes interessadas se relacionam com o desenvolvimento e a conservação dos recursos hídricos.

Gabriela França Carneiro Fernandes possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é Mestranda em Ecologia, pela Universidade Federal de São João del Rei. Ela participa do projeto de pesquisa “Ecossistemas de Referência”.

Domingos de Jesus Rodrigues possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e tem doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. É professor Titular da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiabá. Suas pesquisas focam a biologia reprodutiva de anuros (sapos). É colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, ICMBio, e a Polícia Federal.

Rodolfo Aureliano Salm formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e fez doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Atualmente é Professor Adjunto III da Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira. Pesquisa na área de ecologia de ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.

O post A crise do Cerrado em revisão: – 10. O valor da sustentabilidade do Cerrado e a necessidade de ação apareceu primeiro em Amazônia Real.

A crise do Cerrado em revisão: – 10. O valor da sustentabilidade do Cerrado e a necessidade de ação — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado