O povo Ashaninka, que habita o Peru e o Brasil, enfrenta uma pressão que não respeita linhas no mapa. Do lado peruano, concessões florestais e estradas de madeireiras cercam os territórios e o narcotráfico tenta se instalar onde o Estado custa a chegar. Do lado brasileiro, a Funai, responsável por 28 Terras Indígenas no Acre, opera sem servidores efetivos em Marechal Thaumaturgo, o município onde vivem os Ashaninka do lado brasileiro. A Justiça Federal reconheceu o abandono desse povo e deu 180 dias para que a União apresente um plano de proteção. O rio Amônia, que nasce no país vizinho e atravessa o território nacional, ainda está vivo. Por quanto tempo, ninguém sabe.
TI Kampa do Rio Amônia (AC) – Nas cabeceiras do rio Amônia, no Acre, na fronteira entre o Peru e o Brasil, a floresta ainda parece intacta quando observada do alto. Mas no interior da Terra Indígena (TI) Kampa do rio Amônia, a paisagem já começou a mudar. Estradas de extração de madeira e consórcios industriais avançam do lado peruano e cercam comunidades localizadas entre os rios Amônia, Shahuaya, Tamaya e Yurúa (nome dado ao rio Juruá em território peruano). A principal via desse avanço é a Trocha UC-105, uma rodovia precária na região de Ucayali que conecta as localidades de Nueva Italia e Puerto Breu. As máquinas já chegaram a menos de 10 quilômetros de distância da aldeia Apiwtxa. O impacto dessa malha rodoviária, mapeado pela Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), já alcança 23.829 quilômetros quadrados de subbacias hidrográficas nas cabeceiras, um território maior que o Estado de Sergipe.
Sentado na varanda da sede da Associação Ashaninka do rio Amônia (Apiwtxa), o presidente da organização, Wewito Piyãko, aponta o mapa com a precisão de quem conhece cada curva do rio Amônia. Ashaninka é a autodenominação do povo e pode ser traduzida como “meus parentes”, “minha gente”. O dedo mira as cabeceiras em território peruano. O que o preocupa não é apenas a floresta que pode desaparecer, mas a vida que deixará de existir para as próximas gerações.
“Se eles conseguirem explorar madeira, petróleo e minério ali, acabou para nós aqui. Acabou o rio. E aí a gente vai tirar água de onde?”, questiona Wewito. As águas que abastecem as comunidades nascem exatamente onde a pressão já é maior. E as aldeias não possuem sistema de tratamento, dependendo dos rios para beber, cozinhar e viver. O que acontece nas cabeceiras peruanas desce pelos mesmos rios que chegam às casas dos Ashaninka no Acre.
“Eu já vi rio onde as pessoas não comem mais peixe por causa da mineração”, afirma Wewito. A lembrança reforça um sentimento que mistura indignação e tristeza. Para ele, a ameaça não está apenas nas máquinas ou nos projetos que avançam sobre a floresta, mas na dificuldade de fazer com que o restante da sociedade compreenda o que está em jogo. Em maio, a reportagem da Amazônia Real visitou a TI Kampa do rio Amônia. Encontrou um povo que resiste a diversas ameaças.
A situação se repete em Alto Tamaya Saweto, conhecido internacionalmente após o assassinato de indígenas, como o líder Ashaninka do lado peruano e ativista Edwin Chota. Essas lideranças denunciavam o avanço da extração ilegal de madeira. Além de pressionar territórios já reconhecidos, as concessões também afetam propostas de regularização fundiária indígena. Áreas reivindicadas por comunidades como Antami, Puerto Dos e San Miguel de Tsitsire aparecem sobrepostas às concessões florestais, dificultando o reconhecimento oficial dessas terras.
“Essa estrada já existe. Ela não parou aqui. Ela já continuou”, avança na explicação Wewito, que resume o que os mapas confirmam. As máquinas voltaram a avançar pela floresta e se aproximaram das comunidades indígenas. Mas encontraram resistência organizada.
“A comunidade prendeu as máquinas (Sawawo) aqui. Não deixou eles cruzarem o rio”, explica Wewito. A empresa conseguiu apoio das autoridades peruanas para recuperar os equipamentos, contudo o projeto ainda não foi abandonado. “Como essa comunidade não deixou passarem novamente por aqui, estão vindo por outros lugares”, alerta a liderança indígena.
O complexo lado peruano
O cerco aos Ashaninka na fronteira Brasil-Peru
Mapa interativo com terras indígenas, aldeia Apiwtxa, sítios sagrados, concessões madeireiras e a Trocha UC-105 (Clique nos itens para mostrar ou ocultar)
Para compreender a Amazônia peruana, é preciso entender que a floresta é tratada pelo modelo econômico do país como almoxarifado para exportação. Em 2023, o Congresso peruano aprovou a Ley 31.973, apelidada de “Ley Antiforestal”, que anistiou e regularizou de forma retroativa terras desmatadas ilegalmente para monoculturas de dendê e cacau. A medida retirou o poder de veto do Ministério do Ambiente, abrindo espaço para a derrubada de mata sem licenciamento e ameaçando locais de importância cultural e espiritual dos Ashaninka. Ariarite e Encantada, por exemplo, são espaços que funcionam como cemitérios e locais de memória ancestral situados no traçado das retroescavadeiras.
Mas, além dos impactos ambientais, a expansão das concessões ameaça também locais considerados espiritualmente sagrados. Mapeamentos de ocupação histórica identificam ainda áreas como Ishico, Collpa Grande, Wakanki, Kopitxarentsi, Piedra e Comunidad de Japó como pontos de importância cultural e espiritual. Muitos estão situados no traçado projetado das estradas ou dentro dos limites das concessões industriais.
Ariarite se localiza nas proximidades das áreas de moradia de famílias Ashaninka em Aricemi, Paulo e Pedrillo, ao longo do rio Amônia e da Quebrada Shahuaya. Já Encantada está situada entre as Quebradas Shahuaya e Tuturotango, em uma área ocupada por famílias indígenas. Para o povo, esses lugares não são apenas patrimônio histórico: são cemitérios, locais de memória ancestral e espaços de rituais ativos. A destruição desses espaços não fica só no mapa. Ela já chegou às relações entre vizinhos e parentes.
María Elena Sawawo, liderança da comunidade de mesmo nome no Peru, esteve presente nas primeiras horas do principal bloqueio às madeireiras. O que ela mais lamenta não é o dano à floresta, mas o que a estrada fez nas relações entre as pessoas. “A estrada nos fez brigar entre comunidades, entre famílias. Criou atritos”, diz à Amazônia Real.
“Dizem que a estrada é para o desenvolvimento, mas não enxergamos isso. Se fosse realmente desenvolvimento, não estaríamos vivendo conflitos com nossas próprias famílias e com nossos próprios vizinhos.”
Segundo ela, a comunidade nunca chegou a ser comunicada sobre a chegada da rodovia. E quando ela foi questionar os responsáveis, a resposta foi que acreditavam que tudo estava coordenado com a comunidade. “Eu disse a eles: vocês nunca conversaram conosco para saber de que forma poderíamos ser afetados.”
Ela é testemunha das mudanças que chegaram à floresta. Com tristeza, viu áreas reflorestadas pela comunidade serem destruídas pela abertura de caminhos e atividades associadas às concessões. “A água ficou parada. Já não era mais normal.”
María Elena afirma ainda que cursos d’água foram alterados. Alguns rios foram represados e tiveram seu fluxo modificado. Além disso, agrotóxicos, óleo e demais atividades de exploração poluem o rio. Embora a natureza tenha regenerado parte dessas áreas ao longo dos anos, ela acredita que os danos continuam presentes.”A água parada nos contamina e faz mal para nós”, denuncia.
Hoje, a liderança corre risco de morte, mas não pela água que bebe. Ela vive sob constantes ameaças. “Chegaram a atirar para o alto quando passávamos e também agrediram os integrantes dos comitês de vigilância. Se tivéssemos respondido com violência, não sei onde isso teria terminado.”
A coca e o crime organizado

Folhas de coca triturada, conhecida como mambe, para serem mascadas (Foto: Crista Castellanos/ CC-BY-SA-4.0).
Há uma pressão que as lideranças falam com cuidado, mas não omitem: o avanço do narcotráfico sobre territórios onde o povo Ashaninka cultiva coca por razões espirituais e medicinais. No lado peruano da fronteira, o risco já se concretizou. Organizações criminosas ligadas ao tráfico de cocaína passaram a pressionar comunidades Ashaninka peruanas para que cedessem parte de seus territórios à produção ilegal.
Em pelo menos um caso documentado, uma comunidade cedeu e hoje vive sob ameaça e controle de grupos do crime organizado. No Brasil, a Opirj relata que organizações criminosas já tentaram entrar em terra indígena para se associar ao cultivo de coca. A resposta tem sido o diálogo e a vigilância territorial, a mesma estratégia que permitiu ao povo resistir às madeireiras.
Na cultura Ashaninka, a coca é mascada com “ishico” (ou “ishiko”). É um pó branco extraído a partir da queima e trituração de pedras calcárias especiais. Esse pó alcalino ajuda a extrair e ativar as propriedades medicinais e os nutrientes da folha na boca, além de suavizar o sabor amargo.
“A gente fica pensando muito, porque depois de nós, vêm as próximas gerações. A gente cuida agora, mas não sabe se eles vão conseguir dar continuidade”, reflete Iara Luiza Piyãko. A jovem tem 22 anos e nasceu na TI Kampa do rio Amônia. Aos 14, começou a atuar na comunicação indígena, registrando reuniões, denúncias e expedições de monitoramento territorial. Em uma dessas coberturas, esteve em um posto de vigilância no lado peruano após a invasão de madeireiros que destruíram equipamentos de monitoramento das comunidades. É uma lembrança dolorida.
Iara Luiza e seu povo vivem acuados pelo crime e pela pressão empresarial que os cercam, mas não têm para onde fugir. “A floresta é o nosso mercado e das gerações futuras. A gente está cuidando agora e espera que eles possam continuar cuidando depois de nós.” Assim tem sido há gerações.
A resistência dos Ashaninka

Rio Amônia em frente à aldeia Apiwtxa, do Povo Ashaninka, em Marechal Thaumaturgo. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Aldeia Apiwtxa do Povo Ashaninka, no rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, Acre. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Crianças Ashaninka chegando de barco logo cedo para as aulas matutinas, na Escola Samuel Pianko. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Crianças Ashaninka estudantes da escola Samuel Piyãko, na aldeia Apiwtxa, vão e vêm de barco para as aulas. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Tecidos para Kushma, vestimenta tradicional Ashaninka, secam ao sol depois de tingidos. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Aldeia Apiwtxa do Povo Ashaninka, em Marechal Thaumaturgo, Acre. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Crianças Ashaninka estudam em escola Samuel Piyanko, na aldeia Apiwtxa. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Crianças Ashaninkas indo para a escola de manhã cedo, na aldeia Apiwtxa. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Crianças Ashaninkas estudam em escola Samuel Piyanko, na aldeia Apiwtxa. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Crianças Ashaninka estudantes da escola Samuel Piyãko, na aldeia Apiwtxa, vão e vêm de barco para as aulas. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Mulher Ashaninka na aldeia Apiwtxa, observa o movimento da comunidade de sua janela. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Moisés Piyãko é uma liderança importante do povo Ashaninka do Rio Amônia. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Mãe e filha, Alzelina Luiz e Kamorishy Piãko, respectivamente; tecem Kushma, vestimenta tradicional Ashaninka. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Alzelina Luiza tece Kushma, vestimenta tradicional do povo Ashaninka. Alzelina é artirsta, artesã e esposa do cacique Wewito Piyãko. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Alzelina Luiza tece Kushma, vestimenta tradicional do povo Ashaninka. Alzelina é artirsta, artesã e esposa do cacique Wewito Piyãko. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Até o fim da década de 1980, os Ashaninka viviam dispersos ao longo do rio Amônia, fragilizados pela forte exploração de patrões seringalistas e madeireiros. Sob a liderança do cacique e líder histórico Antonio Piyãko, a comunidade percebeu que a dispersão facilitava as invasões e o roubo de suas terras. Naquele período, lideranças indígenas denunciaram a exploração florestal e pressionaram autoridades a intervir. As denúncias surtiram efeito e os trabalhos foram interrompidos. Sem manutenção, os trechos abertos voltaram a ser tomados pela vegetação.
Em 1991, eles tomaram uma decisão: concentrar as famílias em um único local estratégico para fortalecer a resistência. Nascia a Aldeia Apiwtxa, cujo nome na língua nativa significa “união” ou “juntos”. Pouco depois, em 1993, foi formalizada a Associação Apiwtxa, a primeira organização jurídica do povo Ashaninka do Acre, transformando a aldeia no centro político e administrativo de suas decisões. A área era um conjunto de fazendas da região, “apenas pasto”. Com a retomada do povo, a missão foi reconstruir o que foi destruído.
A liderança também reforça o sentimento de vigilância permanente diante das estradas e das máquinas, que não cessavam. A resistência coletiva foi fundamental. “Não tinha muita escolha, era ficar e lutar para defender o que era nosso, então a gente resolveu ficar junto, organizar o povo e não deixar mais entrar desse jeito”, afirma o cacique.
Antônio narra sua trajetória a partir da formação do seu povo e da construção da vida coletiva na Terra Indígena, destacando a importância de sua união com a companheira, que também foi liderança ativa na luta em defesa do território. “Ela dizia o que eu tinha de fazer, eu ia lá e fazia”.
Memória e legado

Cacique geral do povo Ashaninka do Rio Amônia, Antônio Piãko, e sua esposa, Francisca Oliveira da Silva, conhecida como Dona Pití. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
Francisca Piyãko, também conhecida como dona Pití, chegou ao rio Amônia aos 19 anos. Nascida em uma família de seringueiros do Alto Juruá, apaixonou-se por Antônio Piyãko, um Ashaninka vindo do Peru. O casal formou um um casamento interétnico incomum para a época. “Quando me casei com o Antônio, a vida era muito boa. Passei uns quatro anos bem, sem ouvir falar nada, mas depois começaram a chegar os madeireiros.”
A intensificação da exploração madeireira na década de 1980 trouxe invasões mecanizadas e cortes em grande escala. Entre 1981 e 1987, madeireiros abriram cerca de 80 quilômetros de estrada e ramais na mata. As consequências culturais foram profundas: a frequência de rituais com piyarentsi (caiçuma) e (ayahuasca) diminuiu; alguns Ashaninka deixaram de usar a kushma [vestimenta tradicinal], e a língua nativa passou a ser discriminada.
Diante disso, o casal liderou a resistência. “A gente começou a lutar mesmo pela terra. Era reunião, era conversa, era todo dia pensando como defender o território, porque a gente sabia que se não se organizasse, ia perder tudo o que era nosso”, diz Antônio, hoje com 79 anos. Em alguns momentos, a tensão chegou ao limite: “A gente tocou fogo em madeira que ficou aí, porque era muita coisa acumulada, muita destruição mesmo.” A dupla também presenciou helicópteros trazendo invasores, até dizerem “chega, não vai tirar mais”, e os madeireiros decidiram ir embora.
Foi Francisca quem decidiu denunciar as invasões. Para não ser identificada pela própria letra, que os madeireiros conheciam, pediu ajuda ao filho de 13 anos: “Mandei o meu filho Francisco escrever tudo. Ele passou a limpo para o juiz não reconhecer a minha letra.”
A denúncia chegou à Funai, fiscais e policiais foram mobilizados, e os madeireiros deixaram a região, mas o preço foi o medo. “Eu tinha muito medo de ser morta. Eu era branca, né? Tinha medo de acontecer alguma coisa comigo por estar nessa luta”.
Ela lembra que quem a ajudou nesse período foi Antônio Luiz Macedo, indigenista da Funai com uma longa e reconhecida trajetória de apoio aos indígenas no Acre. Mais conhecido como Txai Macedo, faleceu em janeiro deste ano, aos 73 anos.
O menino que ajudou a escrever a denúncia se tornou uma das principais lideranças Ashaninka no Brasil. Francisco Piyãko hoje representa seu povo em negociações nacionais e internacionais, com uma sólida atuação como líder de seu povo. Dona Pití faz questão de lembrar onde tudo começou: “Um pouquinho que ele aprendeu foi comigo. Eu ensinei o ABC.”
A nova geração Piyãko se dividiu em frentes complementares de luta. Francisco atua na articulação política do Alto Juruá. Wewito preside a Associação Apiwtxa e lidera a gestão territorial. Isaac foi o primeiro indígena eleito prefeito de um município acreano, à frente de Marechal Thaumaturgo entre 2017 e 2022. Benki tornou-se referência internacional em restauração florestal, à frente do Instituto Yorenka Tasorentsi. Moisés dedica-se à medicina indígena e à espiritualidade. Dora e Alexandrina representam o protagonismo das mulheres na nova geração de lideranças.
A ameaça mudou de nome: antes eram os madeireiros, agora são as concessões industriais, a estrada que liga o Peru ao Acre e o avanço do crime organizado. Mas Dona Pití, agora aos 78 anos, pode dizer que sente algo que não experimentou durante os anos de conflito. “Eu sinto uma paz no meu coração. Eles são o que eu ensinei.”
Na memória de Francisco Piyãko, a força de sua mãe sempre esteve no enfrentamento do medo. “Ela dizia que nós éramos gente, que não precisávamos fugir. Precisávamos ficar e lutar para que respeitassem o nosso povo”, lembra. E, assim, nasceram e cresceram as lideranças: aprendendo que defender o território era também lutar pela própria vida. Ainda adolescentes, passaram a participar das reuniões, das articulações e da resistência ao lado da mãe. “A gente cresceu fazendo luta. Não foi uma escolha, foi a nossa forma de existir.”
Uma comissão transfronteiriça

Primeira tentativa de estrada no Peru dentro do território dos Ashaninka Sawawo de Hito 40, fronteira com o Brasil, localizada no distrito Yurua, em Ucayali, Peru, em 2022. (Foto cedida por Yara Piyãko/ Associação Apiwtxa).
Os Ashaninka não esperam que os governos resolvam o que eles mesmos já estão monitorando. Em 2021, o povo foi fortalecido com a criação da Comissão Transfronteiriça, um espaço criado para monitorar as ameaças que cercam a região, compartilhar informações e construir estratégias conjuntas de proteção territorial. A iniciativa reúne lideranças do Brasil e do Peru em torno de um princípio que define a identidade do povo: fronteiras políticas não existem para quem sempre viveu dos mesmos rios.
No mesmo período, uma grande expedição reuniu cerca de 200 indígenas em 30 embarcações para percorrer as cabeceiras dos rios ameaçados. A expedição serviu para constatar o avanço das concessões e organizar a resistência do lado peruano, onde a pressão chegou primeiro.
A distância entre os territórios na fronteira é de apenas 5 quilômetros. A Comissão Transfronteiriça combina dados técnicos de satélite com conhecimento territorial dos próprios indígenas, produzindo os mapas mais precisos que existem sobre a pressão na região. “É um trabalho que nós temos que fazer o quanto antes, enquanto o rio ainda está vivo”, diz Wewito.
O que acontece no Peru não fica no Peru

Dora Piyãko é artista, artesã e uma liderança no povo Ashaninka. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
As preocupações das lideranças encontram eco nas pesquisas da Universidade Federal do Acre (Ufac). A pesquisadora Ludmila Brandão explica que os rios do Acre fazem parte de um sistema transfronteiriço alimentado por cursos d’água que nascem no Peru e na Bolívia. “A maioria dos nossos rios nasce em território vizinho. O que acontece nas cabeceiras peruanas não fica no Peru”, alerta. Apesar da gravidade, o monitoramento oficial da Agência Nacional das Águas (ANA) é precário, analisando apenas 5 dos 30 parâmetros recomendados (turbidez, oxigênio, pH, temperatura e condutividade).
Essa lacuna científica preocupa quem depende do rio para manter a própria identidade. É das margens do Amônia que os Ashaninka retiram o barro “Pitsithare” para tingir a kushma, a vestimenta tradicional. Usá-lo exige permissão pois ele é um espiríto.
“Se esse rio se contaminar, a tinta para a tecelagem não vai mais poder ser extraída”, explica Dora Ashaninka. “Se pegamos um barro doente, nós adoecemos juntos. Nossa conexão com a floresta, a terra e a água é um mundo só; sem esse mundo, a gente não vive.”
O Estado que não chegou

Aldeia Apiwtxa e Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo – Acre. (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
A fragilidade da proteção territorial no lado brasileiro tem algumas origens, dentre elas a institucional. A Coordenação Regional da Funai no Juruá, responsável pelo atendimento de 28 Terras Indígenas no Acre, opera sem servidor lotado em Marechal Thaumaturgo, o município onde está localizada a TI Kampa do Rio Amônia. Em sentença proferida em 12 de junho de 2026, o juiz federal Filipe de Oliveira Lins reconheceu que a Funai enfrenta um problema estrutural de funcionamento e determinou que a União e a autarquia elaborem, em até 180 dias, um Plano de Reestruturação Institucional. A decisão é resultado de uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF), que apontou um cenário de precariedade administrativa e operacional.
Durante o processo, alguns serviços essenciais foram regularizados, como internet móvel via antenas da Starlink, limpeza, combustível, motoristas terceirizados. Mas a Justiça entendeu que o problema central permanece: a insuficiência de servidores e de estrutura para garantir a atuação da Funai. A sentença é mais severa no caso de Marechal Thaumaturgo. Ela destaca a necessidade de dotar a unidade local de servidores e de estrutura física adequada para garantir atendimento permanente. Hoje, a Unidade Técnica Local (UTL) não tem nem uma coisa, nem outra.
O ICMBio, embora responsável pela gestão do Parque Nacional da Serra do Divisor e da Reserva Extrativista Alto Juruá, que faz divisa com a TI Kampa do Rio Amônia, afirmou à reportagem que ainda não possui dados consolidados sobre as pressões denunciadas pelos Ashaninka. O órgão informou que as evidências mais consistentes vêm sendo produzidas pelos próprios indígenas, por meio da Associação Apiwtxa, Opirj e também pela Funai.
Contra a destruição

Crianças Ashaninka lancham na escola. A maior parte dos alimentos consumidos na escola vêm da própria aldeia.(Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real).
As áreas protegidas brasileiras, o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Reserva Extrativista Alto Juruá têm ajudado a conter o avanço do desmatamento formando um “escudo verde”, mas as comunidades alertam que sua preservação não ocorre sem a conservação das cabeceiras localizadas no Peru. E isso tem sido ensinado aos jovens Ashaninka.
Nas escolas, a matemática é aprendida na língua ashaninka, embora nas paredes é possível ver o alfabeto também em português. O conhecimento em construções e na agricultura é pensado a partir dos 6 anos, e as lideranças repassam aos jovens a instrumentação bilíngue (espanhol e português) como ferramenta para ler um mundo complexo, porém sem esquecer quem são. Os Ashaninka pertencem à família lingüística Aruak (ou Arawak).
O santuário que Dom Phillips viu

Dom Phillips durante viagem ao Acre para a TI Ashaninka (Foto: cedida por Wewito Ashaninka)
A vanguarda dos Ashaninka na gestão de seu território já havia despertado a atenção do jornalista britânico Dom Phillips, assassinado na divisa da Terra Indígena Vale do Javari (Amazonas) em 2022. Semanas antes de ser assassinado numa emboscada junto com o indigenista Bruno Pereira , Dom visitou a aldeia Apiwtxa para documentar o que considerava um dos modelos mais bem-sucedidos de conservação ambiental e soberania indígena do planeta.
A experiência veio a compor os capítulos do seu livro póstumo, Como Salvar a Amazônia, no qual aponta o reflorestamento e a vigilância indígena como as barreiras mais eficazes contra o colapso da floresta. Anos após a partida de Dom, o avanço implacável das estradas madeireiras a menos de 10 quilômetros da aldeia prova que o santuário que ele tentou mostrar ao mundo segue sob cerco máximo.
Numa noite de céu aberto sobre o rio Amônia, a Amazônia Real presencia os Ashaninka sentados em meia lua para compartilhar a ayahuasca (kamarãpe). Preparada por anciãos e jovens , o cipó “hararpe” é cozido com a folha da “horowa” e apurado por cerca de seis horas. Esse momento representa o encerramento de um ciclo que começa no roçado e termina na noite conectando homem, natureza e território. O que durante o dia defendem com mapas, denúncias e expedições, à noite confirmam com o ritual: este lugar é deles, e eles são este lugar.
Wewito Piyãko resume a ameaça da forma mais simples possível. “As pessoas ficam pensando que está longe. Mas não está. Chegou no nosso limite, chegou aqui. O rio que sai daqui vai morrer no mar.” E o que acontece com ele no caminho, nas cabeceiras peruanas cercadas por concessões, nas aldeias sem Funai, nas fronteiras onde o crime tenta entrar, é uma decisão que, no momento, o Estado brasileiro ainda não fez.
O que diz a Funai
Em nota, a Funai reconheceu que a abertura de estradas e o avanço de empreendimentos perto da fronteira “podem aumentar riscos” de invasões, extração ilegal de recursos naturais e tráfico de drogas, mas afirmou que mantém articulação com outros órgãos de segurança e fiscalização. Sobre a TI Kampa do rio Amônia, disse não ter sido “oficialmente acionada” sobre denúncios de garimpo ilegal.
A Fundação afirmou que atua de forma permanente na proteção territorial dos povos indígenas do Vale do Juruá através da Coordenação Regional do Juruá, criada em 2012. Sobre a decisão judicial, disse estar fortalecendo sua força de trabalho com a adesão ao Concurso Público Nacional Unificado de 2024 — mais de 750 vagas, atualmente na terceira convocação — e a contratação de 155 temporários para a Frente de Proteção Etnoambiental Envira.
Por fim, informou que participa, com o Ministério dos Povos Indígenas e o Itamaraty, das tratativas para um Memorando de Entendimento Brasil-Peru sobre proteção de povos indígenas na fronteira, “em fase final de formalização”, mas não informou uma data para essa assinatura.
Fonte original
Radar Olhar Aguçado ↗
