Manaus (AM) – O enquadramento do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo norte-americano entrou em vigor na sexta-feira (5). As duas facções sediadas no Brasil passam a fazer parte de uma lista unilateral dos Estados Unidos composta por Hamas, Hezbollah e Al Qaeda, além de cartéis latino-americanos, como Tren de Aragua, da Venezuela, e Sinaloa, do México. A medida, que repete estratégias de sanções econômicas e pressões políticas adotadas mais radicalmente na Venezuela, abre caminho para uma potencial interferência nos interesses soberanos do Brasil.
Para Aiala Couto, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), a classificação funciona como uma “chantagem geopolítica” de Donald Trump para tentar forçar o Estado brasileiro a aceitar a exploração de recursos naturais estratégicos, com foco especial nas reservas de terras raras localizadas no norte e oeste da Amazônia. A região detém as maiores reservas desse minério do País.
Referência em estudos sobre narcotráfico e atuação de facções na Amazônia, Aiala Couto detalha como as estas organizações criminosas servem de pretexto para o avanço dos interesses econômicos de Washington no ano em que o Brasil enfrenta um cenário de disputas eleitorais. Couto é geógrafo, com mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Pará (UFPA), e doutorado em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental e pós-doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também é diretor do Instituto Mãe Crioula. Ele e sua equipe de autores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública elaboraram a publicação “Cartografias da Violência na Amazônia”, cuja edição mais recente é de novembro de 2025.
De acordo com dados do estudo do Fórum, CV e PCC – grupos originários do sudeste -, destacam-se entre 17 facções identificadas na Amazônia brasileira na atualidade. As duas facções exploram há mais de uma década as “vulnerabilidades amazônicas” e estão em “crescente interconexão com crimes ambientais, especialmente em terras indígenas”.
Os pesquisadores identificaram que o CV mantém hegemonia nas rotas fluviais, especialmente no eixo do rio Solimões, em articulação com a produção peruana e os cartéis colombianos. O PCC, por sua vez, tem intensificado o uso de rotas aéreas clandestinas, aproveitando pistas de pouso em garimpos ilegais e unidades de conservação.
Na Amazônia, facções combiam negócios ilícitos com violência, imposição de medo, aliciamento, domínio de territórios e extorsão visando benefícios econômicos e manutenção da atividade clandestina.

Leia a entrevista concedida na semana passada por Aiala Couto à Amazônia Real:
Amazônia Real – Como você avalia o enquadramento do CV e do PCC como terroristas pelo governo Trump?
Aiala Couto – É uma questão geopolítica e histórica. O Brasil, nos últimos anos, antes do governo Bolsonaro, fez uma política de aproximação com a China e de afastamento com os Estados Unidos. Claro que não foi um rompimento total, mas uma perspectiva de se aproximar mais do mercado chinês, aceitar investimento e criar estratégias unificadas de cooperação geopolítica internacional. Eu acho que os Brics [bloco de alianças que tem Brasil, Índia, China, Rússia, entre outros países] são um exemplo disso. Essa perspectiva dos Brics vai criar uma estratégia geopolítica do Brasil enquanto potência regional de unificar mercados na América do Sul e expandir a influência do Brasil sobre os países da América Latina. A China se aproxima da América Latina e começa a se tornar um investidor em potencial, sobretudo em investimento em infraestrutura e energia. Hoje, essa disputa entre Estados Unidos e China coloca o Brasil no centro da discussão. Antes da intervenção na Venezuela, foram anunciados bilhões de investimento da China para triplicar a produção de petróleo venezuelano. Os Estados Unidos invadem antes do investimento. No Brasil existe cada vez mais uma aproximação entre Brasil e China e a China apresenta a maior concentração de terras raras de minérios do planeta e depois o Brasil. São minérios essenciais para energia renovável, da tecnologia espacial, setor bélico, fábrica eletrônica, e que é de interesse também dos Estados Unidos. O Brasil tem a concentração de minério, mas não tem tecnologia suficiente para exploração.
Amazônia Real – Pode explicar melhor essa estratégia?
Aiala Couto – Esse anúncio é uma estratégia geopolítica para afetar essa influência geopolítica chinesa. Quais são os possíveis impactos? Muitas pessoas não entenderam esses impactos. Existe uma questão que envolve bloqueio financeiro, prisões, etc. Bancos privados brasileiros que atuam nos Estados Unidos, se forem acusados de lavar dinheiro do crime organizado, do tráfico de drogas no CV e PCC, vão ser acusados de grupos que favorecem os crimes e sofrerão sanções, assim como o setor do agronegócio que fornece químicos. Se essa empresa for acusada pela inteligência norte-americana porque ela fornece produtos para beneficiar a droga de CV e PCC, também será afetada do ponto de vista econômico e jurídico. Mas ninguém atentou que, para mim, isso pode ser utilizado como uma válvula de escape para criar uma postura protecionista no mercado norte-americano e não apenas uma questão de poder interferir no território brasileiro ou na política de combate ao terrorismo global. E as pessoas bateram palmas, aplaudiram sem entender o real significado do que seria esse reconhecimento por parte do governo norte-americano em relação ao PCC e ao Comando Vermelho como grupos terroristas internacionais.
Amazônia Real – Quem vai fazer o trabalho de identificar essas tais ‘irregularidades’?
Aiala Couto – A inteligência norte americana, a CIA. Foram eles que falaram que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, era chefão do tráfico.
Amazônia Real – Quando a decisão do Trump foi anunciada, logo veio o receio de uma interferência na região amazônica, um pretexto para afetar a soberania do País e coisas assim. O que acha?
Aiala Couto – A maior concentração de terras raras está aqui na região amazônica, na parte norte e oeste do Amazonas. Ele já invadiu a Venezuela sem provas de que o presidente [Nicolas Maduro] era líder da facção do tráfico de drogas. Então, invadir o Brasil não é uma novidade se isso acontecer. Mas são questões diferentes a serem observadas. O Brasil é mais pacífico e democrático. O Brasil tem muitos aliados internacionais. Isso não pegaria positivamente para os Estados Unidos. Então, eu diria que é uma questão de correlação de forças, de intimidação diante do cenário político que se encontra o Brasil hoje, no ano de eleição. É também uma forma de tirar atenção do Flávio Bolsonaro e do caso do Banco Master, que foi pedir apoio do Trump.
Amazônia Real – É possível que o Trump faça uma intervenção no Brasil para extrair os recursos?
Aiala Couto – Eu acho que no Brasil não seria tão fácil assim. O Brasil tem muitos aliados internacionais, como China e União Europeia. Então, diferentemente da Venezuela, o Brasil não pode representar risco para ninguém, nem para os próprios Estados Unidos. Eu vejo muito mais isso como uma cortina de fumaça. Chamo isso de chantagem geopolítica.
Amazônia Real – Para obter o quê?
Aiala Couto – Para obter os interesses que ele tem, que é explorar os recursos, mas de forma democrática, ou seja, dialogando com o Brasil [usando a chantagem]. O que não torna tão democrático assim.
Amazônia Real – Forçando o Brasil a tentar negociar oferecendo algo em troca?
Aiala Couto – É isso. Matou a charada. O que o governo americano quer é que o Brasil aceite que os Estados Unidos têm a tecnologia para explorar os recursos naturais na Amazônia em relação aos minérios raros.
Amazônia Real – Por que não é possível equiparar PCC e do CV a organizações terroristas já conhecidas, como Hamas ou Al Qaeda?
Aiala Couto – Por excelência, as organizações criminosas têm uma definição que se dá pela questão hierárquica de organização, pela busca do poder financeiro e do poder estratégico de controle territorial. Os grupos terroristas são grupos que têm uma postura política e ideológica. Eles procuram criar um Estado independente e conseguir fragmentar o território; criar uma outra estrutura de poder de controle a partir do que é dentro de uma dimensão que é simbólica. Não é a mesma coisa que acontece com as facções criminosas. O terrorismo é um problema de segurança nacional. Elas são problemas de segurança pública e são coisas diferentes. Então, o problema de segurança pública, o Brasil tem que resolver enquanto Estado nacional e não os Estados Unidos interferindo dizendo que é um grupo terrorista.
Amazônia Real – Como facções como PCC e CV operam?
Aiala Couto – O interesse é na venda de droga, lavagem de dinheiro e no controle territorial específico para manter o mercado local da cocaína. As facções criminosas são uma questão periférica dentro desse cenário porque hoje os grandes estrategistas do mercado de tráfico de drogas estão fora dessa zona de conflito. Eles não moram na favela.
Amazônia Real – Eles estão onde e quem são eles?
Aiala Couto – Estão nos prédios de luxo, nos condomínios fechados. Quem mais ganha com o tráfico são os intermediários, que fazem essa interligação com a droga que sai daqui do Brasil e chega, por exemplo, na Bélgica. Ela entra no Brasil a 22 mil reais e chega a 400 mil reais na França.
Amazônia Real – Quem são esses intermediários?
Aiala Couto – Tem muito empresário que lava dinheiro com criptomoeda, com bitcoin e lava dinheiro com fazenda de soja. Aí constrói uma pista de pouso lá dentro para receber droga. Tu achas que são os caras que estão na periferia de Manaus? Tu achas que é o cara que está no morro do Rio de Janeiro? Essa galera é um outro pessoal. Não tem interesse realmente em questão que associe eles ao terrorismo. Jamais terão. Tu achas que é o cara do Rio de Janeiro que está lá na Europa fazendo tráfico de drogas? O tráfico representa hoje 1% do PIB mundial. Tu achas que esse cara da periferia que faz isso é o cara que está preso, esse cara preto ou indígena periférico que está encarcerado no meio do calor desgraçado no presídio? Esse intermediário é um outro articulador que tem negócios, que tem empresa, que é acima de qualquer suspeita. Consegue movimentar essa rede. E aí esse conflito aqui tira a atenção. Está todo mundo jogando pra cá e tirando atenção de uma estratégia que será muito mais eficaz, que é aprimorar o sistema de inteligência no Brasil.
Amazônia Real – Quais as consequências para este contexto de ano de eleição?
Aiala Couto – Isso vai ter uma influência muito forte na eleição, porque você não sabe o que vai se situar nessa disputa política. O Brasil vai automaticamente criar estratégias de combate ao crime organizado que vão ser muito mais em função dessa pressão do que em função de uma autonomia ou de uma vontade própria. O assunto tem apelo popular. Todo mundo que perdeu um parente para o crime organizado chama de terrorismo. É um senso de justiça, que acha que o Brasil não resolve. Se não resolve, chama alguém para resolver.
Amazônia Real – Como as facções e o crime organizado atuam na Amazônia?
Aiala Couto – A expansão das facções criminosas na Amazônia é resultado de um processo que se dá a partir do sistema prisional, ou seja, a partir do cárcere, onde começa a ocorrer alianças que vão ser estabelecidas entre esses grupos da região Sudeste – Comando Vermelho, PCC – com os grupos locais. E essas alianças acabam deslocando esses grupos para atuar em estados da região amazônica. Esses grupos mais locais que atuam na região vão sendo incorporados a esses grupos maiores, com predomínio do Comando Vermelho, que é o que mais se expandiu por toda região amazônica, mas com uma certa resistência de alguns grupos locais, como por exemplo o Terror do Amapá e o Comando Classe A, que atua no Pará, a partir da região de Altamira. No caso do Amazonas, a Família do Norte (FDN) não resistiu. Ela praticamente não existe mais. O Comando Vermelho se tornou hegemônico. De vez em quando o PCC passa a disputar as estratégias de controle das rotas do tráfico de drogas na região. Então a disputa se dá em função da necessidade de controlar essas rotas que passam pelos rios e utilizam rodovias, estradas, passando por cidades e utiliza também pistas de pouso clandestinas até chegar nos principais portos de exportação, tanto para mercados europeus para atender mercado europeu e africano, quanto para atender o mercado local e o mercado brasileiro.
Amazônia Real – As facções possuem algum tipo de apoio ou facilitação das estruturas do poder para operar?
Aiala Couto – Acho que seria bem radical apontar esse caminho, porque acredito que não é bem dessa forma que funciona, embora eu acredite que o narcotráfico tem relações com instituições públicas e privadas quando ele se infiltra nas estruturas de poder. O poder econômico que o tráfico de drogas movimenta e a sua capacidade financeira de investimento acaba, de certa forma, corrompendo as estruturas do poder. Então corrompe um Judiciário, os agentes de segurança pública, as representatividades políticas em nível de Estado e agentes privados. Isso é algo que a gente não pode negar em função da rentabilidade que o tráfico tem enquanto recurso financeiro. Mas também a gente não pode fechar os olhos para o fato de que, nos últimos anos, com essa presença cada vez maior do crime organizado na região, de facções criminosas, esse mercado latente do consumo de cocaína, naturalmente você tem também o tráfico de drogas e acaba por modificar algumas estruturas, inclusive com influência. Por exemplo, interferindo nas campanhas políticas, como aconteceu nos Estados do Amazonas e do Pará, onde alguns bairros e municípios, determinados candidatos eram proibidos de fazer campanha. E isso acaba, de certa forma, chamando a atenção para até que ponto determinados agentes políticos não tinham interesse nesse tipo de tipo de coerção do tráfico de droga em relação aos candidatos? É uma coisa que tem que ser investigada. Não tenho elementos suficientes para falar sobre isso, mas nós temos algumas evidências.
Amazônia Real – Como funciona a relação do narcotráfico e das organizações criminosas com os crimes ambientais na Amazônia?
Aiala Couto – Até um tempo atrás a gente não falava dessa relação ambiental do crime organizado. Mas aí você tem essa conexão do narcotráfico com o garimpo ilegal, o contrabando de madeira, a grilagem. Você começa a mexer em estruturas de poder econômico mais consolidadas. Pessoas que têm uma rede de influência política que atravessa as nossas interpretações vão muito além daquilo que a gente entende. É por isso que a gente acaba tendo como resultado uma tentativa de apagamento dessa relação, para focar mais aqui no tráfico de drogas, que é uma coisa mais de apelo social, de apelo popular. Talvez o garimpo tenha ganhado um apelo popular em função da questão dos Yanomami e das operações que o governo federal vem fazendo. Mas a gente tem que entender que antes dessa relação já tínhamos uma dinâmica pré-estabelecida e consolidada que envolvia a grilagem, o contrabando de madeira e outras atividades caracterizadas em crimes ambientais. O narcotráfico só se junta a isso tudo. Fica muito mais complexa a relação desses grupos com territórios, comunidades, sobretudo tradicionais. Quando a gente olha pra trás e vê que as pessoas que estavam envolvidas nessa relação de crimes ambientais são atores políticos importantes. Que têm lobby político com deputados federais, com senadores e deputados estaduais, com o prefeito do governador e, portanto, essas pessoas também têm uma certa influência. Determinados governos estaduais na região amazônica tentam fechar os olhos para essa relação de crimes ambientais em que a gente tenta colocar como coisas separadas.
Amazônia Real – Como jornalistas que cobrem essa pauta, percebemos isso. A gente mostra em reportagens mas parece que não avança, não tem um debate na esfera pública, uma investigação permanente e sólida.
Aiala Couto – Isso é proposital.
Amazônia Real – Proposital da parte de quem?
Aiala Couto – Dos Estados.
Amazônia Real – Por que é tão difícil combater narcotráfico com escala criminosa? Qual deve ser a resposta do Estado?
Aiala Couto – Uma vontade política do ponto de vista de se pensar uma coisa relacionada ao pacto federativo. Como resolver isso de forma ostensiva, de forma e de forma estratégica? Modelos alternativos de desenvolvimento que podem evitar com que as comunidades tradicionais, populações vulneráveis, sejam cooptados por essas redes. E também criar leis mais rígidas que possam punir os criminosos. Fala-se em punição de multa, mas depois a pessoa multada vai recorrer. Tem que ter uma vontade política de resolver. Primeiro pela questão da lei. Leis mais severas em relação aos crimes ambientais. Criar um sistema de inteligência unificado que possa garantir informações qualificadas para prender as pessoas que alimentam essas redes. E, ao mesmo tempo, investir em uma política pública que possa ser direcionada para os territórios vulneráveis, que são foco de atenção dessas redes criminosas que ligam tanto o narcotráfico.

O post Trump enquadra CV e PCC para chantagear por minérios da Amazônia apareceu primeiro em Amazônia Real.

