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A crise do Cerrado em revisão: – 6. Floresta invertida

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A crise do Cerrado em revisão: – 6. Floresta invertida

Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Gislene Carvalho de Castro, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside


À primeira vista, o Cerrado pode parecer um Ecodomínio aparentemente “esparso” ou “pobre” na maioria de seus ecossistemas, especialmente quando comparado a densas florestas tropicais. No entanto, essa percepção ignora uma de suas características mais notáveis: a maior parte da biomassa do Cerrado encontra-se no subsolo (Fig. 7) [1]. Suas árvores e arbustos possuem raízes que podem atingir profundidades superiores a 15 m, formando uma verdadeira floresta invertida que sustenta a vegetação durante longos períodos de seca e auxilia na recarga dos aquíferos subterrâneos. Essa estrutura subterrânea não é apenas uma adaptação à escassez de água, mas também serve como um dos principais reservatórios de carbono do Ecodomínio, estabilizando o carbono nas camadas mais profundas do solo [1]. A biomassa do Cerrado armazena, em média, aproximadamente 158 toneladas de carbono por hectare, com cerca de 87% localizadas no subsolo e apenas cerca de 13% na superfície, com base em extensas amostragens realizadas em todo o Ecodomínio (Fig. 7) [1]. Esses números revelam que a maior parte do carbono do Cerrado está onde os olhos não conseguem ver e que qualquer intervenção que comprometa o solo ou as raízes pode liberar grandes quantidades de CO₂ naatmosfera, revertendo o papel do Ecodomínio como sumidouro natural de carbono. Preservar essa estrutura subterrânea é, portanto, essencial para manter a estabilidade climática e hídrica da região (Ver Quadro 2).

Figura 7. Representação esquemática da distribuição dos estoques de carbono no Cerrado, caracterizado como uma “floresta invertida” devido à predominância de biomassa e carbono subterrâneo. As estimativas foram obtidas de Terra et al. [1]. Desenho da figura: Walisson Kenedy-Siqueira.

Nesse contexto, o reflorestamento — o plantio de árvores em áreas que historicamente não eram florestadas — torna-se uma ameaça disfarçada de solução (ver Quadro 2) [2-4]. Embora promovido como uma estratégia de mitigação climática, quando aplicado a ecossistemas naturalmente abertos como o Cerrado, pode causar mais danos do que benefícios. A substituição da vegetação nativa por plantações exóticas homogêneas, como Pinus spp. L. ou Eucalyptus spp., pode alterar a dinâmica da água, prejudicar a biodiversidade herbácea, aumentar a erosão do solo e acelerar a decomposição da matéria orgânica do solo, transformando ecossistemas que antes atuavam como sumidouros de carbono em fontes de carbono [2-4]. Restaurações mal planejadas, utilizando espécies não encontradas naturalmente nesses ecossistemas, podem ter as mesmas consequências nocivas que o reflorestamento. É mais eficaz e economicamente viável conservar o que já funciona do que tentar reconstruir o que foi perdido [5]. Devemos, acima de tudo, lutar pelo que resta: proteger os fragmentos intactos remanescentes do Cerrado é a maneira mais direta e eficiente de preservar seu papel ecológico e climático.

Mas conservar o que resta não basta. Após estancar a perda da vegetação original do Cerrado, será necessário restaurar as áreas degradadas, especialmente as regiões ocupadas por lavouras abandonadas e pastagens exauridas, que hoje ocupam vastas porções do território, mas carecem de função ecológica ou produtiva relevante (ver Quadro 2) [5]. Nessas paisagens vazias, a restauração representa uma oportunidade concreta para a recuperação ambiental e climática, desde que seja guiada pela diversidade, funcionalidade e contexto ecológico [5]. Embora a regeneração natural seja desejável, ela depende da integridade do banco de sementes do solo, que se mostra severamente comprometido em áreas degradadas do Ecodomínio Cerrado [6]. Estudos demonstram que o aquecimento global e as mudanças no uso da terra favorecem a germinação de sementes de espécies invasoras nesses bancos de sementes [7], como Melinis minutiflora P. Beauv. e Urochloa brizantha (A. Rich.) RD Webster, que inibe a regeneração da flora nativa [8, 9]. Para superar essas barreiras, o uso estratégico de bancos de sementes in situ e ex situ é essencial (Tabela 2), integrado a técnicas como a transposição de biomassa, que podem acelerar a recuperação estrutural e funcional da vegetação nativa [10, 11].

No entanto, os viveiros disponíveis ainda carecem da diversidade necessária para restaurar o Cerrado com fidelidade ecológica [12]. As coleções são dominadas por algumas poucas espécies arbóreas, enquanto as plantas campestres, fundamentais para a estrutura e resiliência do Ecodomínio, permanecem negligenciadas [13]. Além disso, a eficácia da restauração baseada em bancos de sementes depende da presença de espécies com alta viabilidade e capacidade de adaptação a novas condições edafoclimáticas locais [14]. Desafios como a dominância de espécies invasoras em bancos de sementes e a longevidade limitada de algumas sementes exigem monitoramento contínuo e manejo adaptativo [6]. Essa situação força os profissionais de restauração a recorrerem a conjuntos genéricos de espécies, criando paisagens homogêneas, ecologicamente frágeis e desconectadas das realidades locais [15]. No entanto, a integração de bancos de sementes no solo com técnicas complementares, como a transposição de biomassa, oferece uma abordagem promissora para acelerar a recuperação da estrutura e função das comunidades vegetais [10, 11, 16]. Portanto, restaurar o Cerrado exige mais do que plantar; demanda a reconstrução de conexões ecológicas baseadas em ecossistemas de referência [5], com investimento em cadeias de suprimento de sementes, pesquisa aplicada e políticas públicas de longo prazo. Somente por meio de esforços abrangentes como esses poderemos cultivar um futuro verdadeiramente sustentável. [17]


Notas

[1] Terra MCNS, Nunes MH, Souza CR, Ferreira GWD, Prado-Junior JAD, Rezende VL, Maciel R, Mantovani V, Rodrigues A, Morais VA, Scolforo JRS, Mello JMD (2023).The inverted forest: Aboveground and notably large belowground carbon stocks and their drivers in Brazilian savannas. The Science of the Total Environment 867: 161320.

[2] Veldman JW, Overbeck GE, Negreiros D, Mahy G, Le Stradic S, Fernandes GW, Durigan G, Buisson E, Putz FE, Bond WJ (2015b). Where tree planting and forest expansion are bad for biodiversity and ecosystem services. BioScience 65: 1011–1018.

[3] Veldman JW, Aleman JC, Alvarado ST, Anderson TM, Archibald S, Bond WJ, Boutton TW, Buchmann N, Buisson E, Canadell JG, Dechoum MDS, Diaz-Toribio MH, Durigan G, Ewel JJ, Fernandes GW, Fidelis A, Fleischman F, Good SP, Griffith DM, Hermann J-M, Hoffmann WA, Le Stradic S, Lehmann CER, Mahy G, Nerlekar AN, Nippert JB, Noss RF, Osborne CP, Overbeck GE, Parr CL, Pausas JG, Pennington RT, Perring MP, Putz FE, Ratnam J, Sankaran M, Schmidt IB, Schmitt CB, Silveira FAO, Staver AC, Stevens N, Still CJ, Strömberg CAE, Temperton VM, Varner JM, Zaloumis NP (2019). Comment on “The global tree restoration potential”. Science 366: eaay7976.

[4] Fernandes GW, Coelho MS, Machado RB, Ferreira ME, Aguiar LM de S, Dirzo R, Scariot A, Lopes CR (2016). Afforestation of savannas: An impending ecological disaster. Perspectives in Ecology and Conservation 14: 146–151.

[5] Pereira CC, Kenedy-Siqueira W, Negreiros D, Fernandes S, Barbosa M, Goulart FF, Athayde S, Wolf C, Harrison IJ, Betts MG, Powers JS, Dirzo R, Ripple WJ, Fearnside PM, Fernandes GW (2024b). Scientists’ warning: Six key points where biodiversity can improve climate change mitigation. BioScience 74: 315–318.

[6] Dairel M, Fidelis A (2020).The presence of invasive grasses affects the soil seed bank composition and dynamics of both invaded and non-invaded areas of open savannas. Journal of Environmental Management 276: 111291.

[7] Kenedy-Siqueira W, Aguilar R, Borghetti F, Moreira B, Fernandes GW (2025). Germination niche of campo rupestre plants: Effects of increased temperature and darkness. Journal of Mountain Science 22: 2541–2554.

[8] Hoffmann WA, Haridasan M (2008). The invasive grass, Melinis minutiflora, inhibits tree regeneration in a Neotropical savanna. Austral Ecology 33: 29–36.

[9] Damasceno G, Souza L, Pivello VR, Gorgone-Barbosa E, Giroldo PZ, Fidelis A (2018). Impact of invasive grasses on Cerrado under natural regeneration. Biological Invasions 20: 3621–3629.

[10] Buisson E, Fidelis A, Overbeck GE, Schmidt IB, Durigan G, Young TP, Alvarado ST, Arruda AJ, Boisson S, Bond W, Coutinho A, Kirkman K, Oliveira RS, Schmitt MH, Siebert F, Siebert SJ, Thompson DI, Silveira FAO (2021). A research agenda for the restoration of tropical and subtropical grasslands and savannas. Restoration Ecology 29: e13292.

[11] Pilon NAL, Campos BH, Durigan G, Cava MGB, Rowland L, Schmidt I, Sampaio A, Oliveira RS (2023). Challenges and directions for open ecosystems biodiversity restoration: An overview of the techniques applied for Cerrado. Journal of Applied Ecology 60: 849–858. h

[12] Silveira FAO, Teixido AL, Zanetti M, Pádua JG, Andrade ACSD, Costa MLND (2018). Ex situ conservation of threatened plants in Brazil: A strategic plan to achieve Target 8 of the Global Strategy for Plant Conservation. Rodriguésia 69: 1547–1555.

[13] Schmidt IB, de Urzedo DI, Piña‐Rodrigues FCM, Vieira DLM, de Rezende GM, Sampaio AB, Junqueira RGP (2019). Community‐based native seed production for restoration in Brazil – the role of science and policy. Plant Biology 21: 389–397.

[14] Martins AM, Engel VL (2007). Soil seed banks in tropical forest fragments with different disturbance histories in southeastern Brazil. Ecological Engineering 31: 165–174.

[15] Toma TSP, Oliveira HFM, Overbeck GE, Grelle CEV, Roque FO, Negreiros D, Rodrigues DJ, Guimaraes AF, Streit H, Dechoum MS, Fonsêca NC, Rocha TC, Pereira CC, Garda AA, Bergallo HG, Domingos FMCB, Fernandes GW (2024). Aim for heterogeneous biodiversity restoration. Science 383: 376–376.

[16] Pilon NAL, Assis GB, Souza FM, Durigan G (2019). Native remnants can be sources of plants and topsoil to restore dry and wet cerrado grasslands. Restoration Ecology 27: 569–580.

[17] Este texto é traduzido de: Pereira, C.C., W. Kenedy-Siqueira, L.R. Maia, V.F. Sperandei, L. Arantes-Garcia, S. Fernandes, G.F.C. Fernandes, G.C. de Castro, D.J. Rodrigues, R. Salm & P.M. Fearnside. 2026. The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation 61: 29–70. Supplementary material.


Sobre os autores

Cássio Cardoso Pereira é doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Ecologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), e graduado em Ciências Biológicasiológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atua como docente colaborador e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGE) da UFSJ. Possui reconhecimento da Web of Science em 2025 pela autoria de 25 publicações científicas como primeiro autor, todas alcançadas até o primeiro ano após a obtenção do título de doutor em Ecologia, como cientista em início de carreira. Atualmente, é editor de área das revistas científicas BioScience (IF = 8.4), Biotropical (IF = 1.7), e Nature Conservation (IF = 1.7). Seus principais interesses de pesquisa incluem conservação da biodiversidade, fenologia, fitossociologia, interações entre artrópodes e plantas, e mudanças climáticas. Para mais informações, acesse aqui.

Walisson Kenedy Siqueira possui graduação e mestrado ciências biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros em doutor em ecologia, manejo e conservação da vida silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É integrante do Laboratório de Ecologia, Evolução e Biodiversidade da UFMG e do Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução. Tem experiência na área ecologia de comunidades, interação inseto-planta e ecologia de sementes.

Lara Ribeiro Maia é Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Sabará e atualmente é Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse na área de ecologia, animais silvestres, educação ambiental, impactos ambientais e micologia.

Vinícius da Fontoura Sperandei possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João Del-Rei, mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de São João Del-Rei e doutorado em Ciências pelo Programa em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é professor da Universidade de Rio Verde. Suas pesquisas são na área de Ecologia, principalmente sobre herpetofauna e ecologia subterrânea.

Lucas Arantes-Garcia possui gradução em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente está na Escola de Ciências e Meio Ambiente, Memorial University of Newfoundland, Corner Brook, NL, Canadá. Possui interesse em invasões biológicas, serviços ecossistêmicos, valoração ambiental, mudanças globais e interações inseto-planta.

Stephannie Fernandes é aluna de doutorado na Florida International University, Miami, FL, E.U.A. As suas pesquisas estão na área de ecologia política, visando descobrir como os arranjos institucionais e as diferentes partes interessadas se relacionam com o desenvolvimento e a conservação dos recursos hídricos.

Gabriela França Carneiro Fernandes possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é Mestranda em Ecologia, pela Universidade Federal de São João del-Rei. Ela participa do projeto de pesquisa “Ecossistemas de Referência”.

Gislene Carvalho de Castro possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrado e doutorado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras. Atualmente é.Professora titular da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Atua na área de ecologia vegetal e restauração ecológica de ecossistemas, com ênfase em trabalhos relacionados a corredores ecológicos de valo. Coordena o projeto de extensão ”Restaurar” que objetiva a restauração ecológica de ambientes degradados e atua em projetos relacionados ao Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

Domingos de Jesus Rodrigues possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e tem doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. É professor Titular da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiabá. Suas pesquisas focam a biologia reprodutiva de anuros (sapos). É colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, ICMBio, e a Polícia Federal.

Rodolfo Aureliano Salm formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e fez doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Atualmente é Professor Adjunto III da Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira. Pesquisa na área de ecologia de ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.

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