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A crise do Cerrado em revisão: – 1: introdução ao estudo

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A crise do Cerrado em revisão: – 1: introdução ao estudo

Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Gislene Carvalho de Castro, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside


Publicamos uma revisão sobre a crise do Cerrado na revista Nature Conservation [1], disponível aqui. Esta série traz essas informações em língua portuguesa.

Resumo. Esta revisão visa aumentar a conscientização sobre o valor do Cerrado para a sociedade e serve como um guia informativo para profissionais da ecologia, formuladores de políticas públicas e todos os interessados na conservação da biodiversidade. Aqui, abordamos de forma abrangente e crítica o processo de degradação em curso no Cerrado, destacando sua complexidade ecológica, diversidade biológica e importância estratégica para a sustentabilidade ambiental e mitigação das mudanças climáticas no Brasil. Examinamos a diversidade de ecossistemas no Cerrado, ressaltando suas vulnerabilidades específicas e a inadequação dos instrumentos legais vigentes para garantir sua proteção. Nossa análise abrange os principais vetores de pressão sobre o território, como o avanço da fronteira agrícola, o uso predatório do fogo, a crise hídrica silenciosa e as ameaças aos povos indígenas, destacando como esses fatores operam de forma interconectada para perturbar os serviços ecossistêmicos da região. As limitações das políticas de conservação atuais e a invisibilidade de espécies e ecossistemas diante dos sistemas jurídico e econômico dominantes também são discutidas. Nossa revisão propõe maneiras de mitigar ou mesmo reverter esse cenário, incluindo o aumento do número de Unidades de Conservação e Terras Indígenas, a valorização de economias regenerativas, a expansão de áreas protegidas e o fortalecimento da governança territorial e climática. A defesa do Cerrado é apresentada aqui não apenas como um imperativo ecológico, mas como uma agenda para a justiça ambiental, a segurança hídrica e a responsabilidade intergeracional. Ao integrar dados, referências, reflexões conceituais e estratégias de ação, esperamos contribuir para reposicionar o Cerrado no centro das discussões sobre conservação, clima e desenvolvimento sustentável.

“Destruir a floresta tropical para obter lucro é como queimar uma pintura renascentista para cozinhar uma refeição.”

—Edward O. Wilson, 1990

Além de conviver com alguns dos piores solos do Brasil intertropical, uma vegetação dos cerrados conseguiu uma fachada ecológica de resistir às queimadas, renascendo das próprias cinzas, como uma espécie de fênix dos ecossistemas brasileiros. Não resiste, porém, aos violentos planejamentos tecnológicos inventados pelos homens ditos civilizados.

—Aziz Ab’Saber, 2003

Esta análise narrativa parte de uma premissa urgente: o avanço contínuo da destruição do Cerrado e a falta de resposta proporcional à gravidade do ocorrido. Algumas vozes já anunciaram, com preocupante antecipação, os efeitos colaterais de uma lógica que insiste em trocar a biodiversidade pela conveniência econômica. O renomado biólogo americano Edward O. Wilson e o famoso geógrafo brasileiro Aziz Ab’Sáber, embora de territórios e perspectivas diferentes, apontaram para o mesmo erro estrutural: o desrespeito ao valor inestimável da natureza em nome de ganhos imediatos. Esta análise ecoa seus alertas, não como uma homenagem, mas como uma continuação. O que se desenrola nas páginas seguintes é fruto de uma preocupação que surge não apenas da perda acelerada da vegetação nativa, da invisibilidade de espécies ou da ruptura de funções ecológicas, mas também da recusa em aceitar que esse desaparecimento seja natural ou inevitável. Embora Brasília, a capital política do Brasil, esteja localizada no Planalto Central do Cerrado, no Distrito Federal, permanece à margem dos centros decisórios políticos e ambientais, apesar de ser um elemento fundamental para a sustentabilidade dos ecossistemas do país. Neste artigo, examinamos a escala e os efeitos desse processo, articulando dados, análises e referências que revelam as ameaças em múltiplas frentes. A degradação dos ecossistemas, a perda de espécies, o enfraquecimento das áreas protegidas, as lacunas legais, os conflitos territoriais, a marginalização do conhecimento tradicional, a invasão de espécies exóticas e a fragmentação de habitats compõem o retrato de uma crise em curso. Mais do que descrever esse cenário, o artigo apresenta possíveis maneiras de interrompê-lo e revertê-lo, com foco na conservação e restauração, no fortalecimento institucional e na construção de alternativas sustentáveis. Para maior clareza, os Quadros 1 e 2 abaixo fornecem definições e contexto para os principais termos e conceitos utilizados ao longo do texto.


Notas

[1] Pereira CC, Kenedy-Siqueira W, Maia LR, Sperandei VF, Arantes-Garcia L, Fernandes S, Fernandes GFC, de Castro GC, Rodrigues DJ, Salm R, Fearnside PM. (2026) The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation 61: 29–70.

[2] Olson DM, Dinerstein E, Wikramanayake ED, Burgess ND, Powell GVN, Underwood EC, D’Amico JA, Itoua I, Strand HE, Morrison JC, Loucks CJ, Allnutt TF, Ricketts TH, Kura Y, Lamoreux JF, Wettengel WW, Hedao P, Kassem KR (2001) Terrestrial ecoregions of the world: A new map of life on Earth. BioScience 51: 933–938.

[3] Ab’Saber AN (1977) Os domínios morfoclimáticos da América do Sul. Geomorfologia 52: 1–22.

[4] Dinerstein E, Olson D, Joshi A, Vynne C, Burgess ND, Wikramanayake E, Hahn N, Palminteri S, Hedao P, Noss R, Hansen M, Locke H, Ellis EC, Jones B, Barber CV, Hayes R, Kormos C, Martin V, Crist E, Sechrest W, Price L, Baillie JEM, Weeden D, Suckling K, Davis C, Sizer N, Moore R, Thau D, Birch T, Potapov P, Turubanova S, Tyukavina A, De Souza N, Pintea L, Brito JC, Llewellyn OA, Miller AG, Patzelt A, Ghazanfar SA, Timberlake J, Klöser H, Shennan-Farpón Y, Kindt R, Lillesø J-PB, Van Breugel P, Graudal L, Voge M, Al-Shammari KF, Saleem M (2017) An Ecoregion-Based Approach to Protecting Half the Terrestrial Realm. Bioscience 67: 534–545.

[5] Coutinho LM (2006) O conceito de bioma. Acta Botanica Brasílica 20: 13–23.

[6] Batalha MA (2011) The Brazilian Cerrado is not a biome. Biota Neotropica 11(1): 21–24.

[7] Este texto é traduzido de: Pereira, C.C., W. Kenedy-Siqueira, L.R. Maia, V.F. Sperandei, L. Arantes-Garcia, S. Fernandes, G.F.C. Fernandes, G.C. de Castro, D.J. Rodrigues, R. Salm & P.M. Fearnside. 2026. The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation 61: 29–70.

Cássio Cardoso Pereira e Gislene Carvalho de Castro agradecem à Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) pelo apoio contínuo. Walisson Kenedy-Siqueira agradece à Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) pelo apoio contínuo. Lara Ribeiro Maia e Gabriela França Carneiro Fernandes agradecem à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pelo apoio contínuo. Vinícius F. Sperandei agradece à Universidade de Rio Verde (UniRV) e à Pró-reitoria de Graduação/UniRV pelo apoio institucional. Gabriela França Carneiro Fernandes agradece à Universidade do Chile pela recepção calorosa e experiência enriquecedora durante o primeiro semestre de 2025. Domingos de Jesus Rodrigues agradece à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) pelo apoio institucional. Os autores agradecem a João Figueiredo e Karin Schmalz pelos valiosos comentários durante a preparação deste artigo. Walisson Kenedy-Siqueira agradece à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig APQ-03263-23) pelo apoio financeiro. Lara Ribeiro Maia agradece à Pró-Reitoria de Extensão da UFMG (PROEX) pelo apoio financeiro. Stephannie Fernandes agradece ao Tinker Field Research Collaborative Grant e ao Women Explorers Award. Domingos de Jesus Rodrigues agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa de produtividade (312407/2022-0). Philip M. Fearnside agradece ao CNPq (312450/2021-4, 406941/2022-0), à Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (01.02.016301.02529/2024-87) e à Rede Brasileira de Pesquisa em Mudanças Climáticas (FINEP/Rede Clima 01.13.0353-00).


Sobre os autores

Cássio Cardoso Pereira é doutorando em ecologia, conservação e manejo da vida silvestre na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É mestre em ecologia pela Universidade Federal de São João del-Rei e graduado em Ciências Biológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa. Está ligado ao Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução, da UFMG. Para mais informações, acesse: https://cassiocardosopereira.com

Walisson Kenedy Siqueira possui graduação e mestrado ciências biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros em doutor em ecologia, manejo e conservação da vida silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É integrante do Laboratório de Ecologia, Evolução e Biodiversidade da UFMG e do Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução. Tem experiência na área ecologia de comunidades, interação inseto-planta e ecologia de sementes.

Lara Ribeiro Maia é Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Sabará e atualmente é Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse na área de ecologia, animais silvestres, educação ambiental, impactos ambientais e micologia.

Vinícius da Fontoura Sperandei possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João Del-Rei, mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de São João Del-Rei e doutorado em Ciências pelo Programa em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é professor da Universidade de Rio Verde. Suas pesquisas são na área de Ecologia, principalmente sobre herpetofauna e ecologia subterrânea.

Lucas Arantes-Garcia possui gradução em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente está na Escola de Ciências e Meio Ambiente, Memorial University of Newfoundland, Corner Brook, NL, Canadá. Possui interesse em invasões biológicas, serviços ecossistêmicos, valoração ambiental, mudanças globais e interações inseto-planta.

Stephannie Fernandes é aluna de doutorado na Florida International University, Miami, FL, E.U.A. As suas pesquisas estão na área de ecologia política, visando descobrir como os arranjos institucionais e as diferentes partes interessadas se relacionam com o desenvolvimento e a conservação dos recursos hídricos.

Gabriela França Carneiro Fernandes possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é Mestranda em Ecologia, pela Universidade Federal de São João del-Rei. Ela participa do projeto de pesquisa “Ecossistemas de Referência”.

Gislene Carvalho de Castro possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrado e doutorado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras. Atualmente é.Professora titular da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Atua na área de ecologia vegetal e restauração ecológica de ecossistemas, com ênfase em trabalhos relacionados a corredores ecológicos de valo. Coordena o projeto de extensão ”Restaurar” que objetiva a restauração ecológica de ambientes degradados e atua em projetos relacionados ao Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

Domingos de Jesus Rodrigues possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e tem doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. É professor Titular da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiabá. Suas pesquisas focam a biologia reprodutiva de anuros (sapos). É colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, ICMBio, e a Polícia Federal.

Rodolfo Aureliano Salm formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e fez doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Atualmente é Professor Adjunto III da Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira. Pesquisa na área de ecologia de ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.

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