Em um salão do automóvel em Pequim, em abril, uma das cenas mais marcantes foi a de Robin Zeng Yuqun, fundador da CATL (Contemporary Amperex Technology), circulando pelo evento.
Ao longo de 2 dias, ele visitou os estandes de pelo menos 23 montadoras, incluindo o Grupo Mercedes-Benz AG e a Hyundai Motor, além de startups chinesas de VEs (veículos elétricos), como a Li Auto e a Nio. Em muitos deles, foi recebido pessoalmente por presidentes e executivos seniores ansiosos para apresentar seus modelos mais recentes na esperança de garantir o apoio da maior fabricante mundial de baterias para veículos elétricos.
A cena ilustra como a gigante chinesa de baterias transformou anos de investimentos agressivos e liderança tecnológica em uma influência sem precedentes sobre a indústria automobilística global. Essa influência permitiu à CATL capturar uma parcela desproporcional dos lucros em toda a cadeia de suprimentos de veículos elétricos, impulsionando seu valor de mercado para quase 1,84 trilhão de yuans (US$ 270 bilhões) em 18 de maio, o maior do índice ChiNext, semelhante à Nasdaq na China.
Para as montadoras, no entanto, a ascensão da CATL tem sido uma faca de 2 gumes. A escala e o reconhecimento da marca da empresa tornam seus produtos difíceis de abandonar, mesmo que suas crescentes ambições em substituição de baterias e negócios adjacentes a empurrem cada vez mais para o território das montadoras.
Em resposta, muitas adotaram estratégias com múltiplos fornecedores ou investiram em sua própria produção de baterias –proteções contra um parceiro que se tornou grande demais para ser ignorado e consolidado demais para ser completamente substituído.
A ASCENSÃO DE UM SUPERFORNECEDOR
Na história da indústria automotiva, poucos fornecedores exerceram esse nível de influência tanto sobre as montadoras quanto sobre os compradores de carros, segundo uma fonte de uma empresa automobilística chinesa. Nem mesmo a Robert Bosch GmbH, a maior fornecedora tradicional de autopeças do mundo, “conseguia influenciar as decisões de compra dos consumidores como a CATL”, afirmou a fonte.
Parte da vantagem da CATL reside em seu investimento inicial em baterias para veículos elétricos. Um ex-executivo de uma multinacional fornecedora de autopeças disse que o desenvolvimento de baterias exige investimentos de capital enormes e de longo prazo antes de produzir retorno.
Embora muitas montadoras tenham tentado desenvolver tecnologias de baterias internamente, a maioria ainda está muito atrás da CATL em termos de investimento.
Além disso, a CATL já passou anos lidando com problemas técnicos e de segurança, enquanto as montadoras que entrarem no mercado de baterias hoje “provavelmente terão que repetir muitos dos mesmos erros dispendiosos”, disse a fonte.
Como os consumidores associam cada vez mais a CATL à segurança e à qualidade, as montadoras têm encontrado dificuldades para migrar para fornecedores de baterias mais baratos sem correr o risco de queda nas vendas, disseram especialistas do setor à Caixin.
Essa pressão se intensificou à medida que a indústria automobilística chinesa enfrenta uma prolongada guerra de preços e uma demanda fraca, fatores que corroeram a lucratividade. As margens de lucro médias do setor caíram para uma mínima histórica de 4,1% em 2025 e recuaram ainda mais para 2,9% nos 2 primeiros meses de 2026, segundo a Associação Chinesa de Veículos de Passageiros.
Um responsável pela área de compras de uma montadora chinesa afirmou que a escala de produção da CATL permite que ela fabrique baterias a um custo menor do que a maioria das operações internas, oferecendo, ao mesmo tempo, qualidade superior do produto.
O marketing da CATL também se tornou uma grande vantagem. Segundo o responsável, quando a equipe de compras propõe a troca para fornecedores de menor custo, a equipe de vendas frequentemente resiste, preocupada com a possibilidade de os consumidores perceberem os veículos como de qualidade inferior. “Depois que você usa baterias da CATL, é muito difícil parar”, declarou.
Nos últimos anos, a empresa intensificou seus esforços de marketing em uma tentativa de se transformar em uma marca voltada para o consumidor, espalhando anúncios por aeroportos e estações de trem de alta velocidade, construindo uma praça na metrópole de Chengdu, no sudoeste da China, para exibir veículos movidos por suas baterias e, neste mês, lançando um banco de dados on-line que permite aos consumidores verificar quais modelos utilizam produtos da CATL.
A estratégia parece estar dando resultados.
A CATL representou 40,7% das instalações globais de baterias de alta potência no 1º trimestre de 2026, ocupando o 1º lugar no mundo, de acordo com a SNE Research, da Coreia do Sul. Na China, sua participação nas instalações de baterias de alta potência atingiu 47,4% nos primeiros 4 meses do ano, segundo a Aliança Chinesa de Inovação em Baterias Automotivas.
O desempenho financeiro da empresa também se tornou notável. A CATL reportou um lucro líquido de 72,2 bilhões de yuans em 2025, valor aproximadamente igual ao lucro combinado de 5 grandes montadoras chinesas: BYD, Geely, SAIC Motor, GWM e Changan Automobile.
No 1º trimestre de 2026, a CATL obteve um lucro adicional de 20,7 bilhões de yuans, superando o lucro combinado de 7 montadoras chinesas, incluindo a Seres Group e a Chery, e tendo um lucro líquido aproximadamente 6 vezes maior que o da Tesla no trimestre.
EXPANDINDO ALÉM DAS BATERIAS
Para ampliar ainda mais sua influência, a CATL está indo além das baterias e investindo em infraestrutura, construindo rapidamente redes de substituição onde os motoristas podem trocar baterias descarregadas em minutos.
A CATL construiu mais de 1.300 estações em toda a China em 2025 como parte de seu plano de longo prazo de expandir a rede para 30.000 estações. A empresa fez parceria com a Baic (Beijing Automotive Group) e a Chery para construir a infraestrutura, além de trabalhar com a Baic, a Guangzhou Automobile e uma joint venture controlada majoritariamente pela SAIC Motor para desenvolver modelos de veículos compatíveis. Os compradores desses modelos podem optar por alugar as baterias separadamente, reduzindo o custo inicial da compra de um veículo.
Uma pessoa familiarizada com a empresa disse que as fortes reservas de caixa da CATL lhe dão a capacidade de construir um sistema comercial autossustentável em torno de seus ativos de baterias.
Para as montadoras, a parceria com a CATL pode reduzir os gastos de capital e acelerar o crescimento das vendas de veículos elétricos, mas também pode significar abrir mão de maior controle sobre os serviços e operações ao cliente, disse a fonte.
A CATL também explorou a expansão para setores adjacentes. A Caixin apurou que a empresa considerou adquirir o negócio de “energia digital” da Huawei, que inclui sistemas de propulsão para veículos elétricos, carregamento ultrarrápido e operações de armazenamento de energia, embora as negociações pareçam ter estagnado no início deste ano devido a diferenças de avaliação.
Ainda assim, as montadoras estão buscando maneiras de manter o poder de barganha.
Muitas agora utilizam estratégias com múltiplos fornecedores, reservando as baterias da CATL para modelos premium, enquanto adquirem baterias para veículos de gama mais baixa de outros fornecedores. Outras continuam investindo em sua própria produção de baterias como forma de proteção.
A Li Auto, por exemplo, formou uma joint venture de baterias com a Sunwoda Electronic em outubro do ano passado e planeja colocar a fábrica em operação ainda este ano. A Geely também tem mantido um equilíbrio entre baterias de produção própria, joint ventures e compras externas, disse o CEO Gan Jiayue à Caixin.
Algumas fontes do setor alertaram que laços estreitos com a CATL não garantem o sucesso. Um exemplo é a Avatr, marca premium de veículos elétricos da Changan Automobile, apoiada pela Huawei e pela CATL, que tem enfrentado dificuldades para conquistar um mercado expressivo desde o seu lançamento.
Em abril, a Changan anunciou planos para integrar as cadeias de pesquisa e suprimentos de suas duas marcas de veículos de nova energia, incluindo a Avatr, em um esforço para reduzir custos em até 30%.
Embora a CATL atualmente detenha influência significativa no mercado de veículos elétricos, esse equilíbrio pode mudar à medida que a consolidação do setor se acelera e as montadoras mais fracas são eliminadas, permitindo que as montadoras sobreviventes recuperem parte do seu poder de negociação, afirmou uma fonte do setor automotivo.
O QUE É A CATL
Fundada em 2011, a gigante chinesa é principal produtora de baterias para veículos elétricos do mundo há mais de 10 anos.
A empresa cresceu a partir do boom dos carros elétricos na China na última década e hoje controla 2/5 da produção global desse tipo de bateria. Em 2018, foi listada na Bolsa de Valores de Shenzhen e em 2021 foi a empresa com mais bilionários na lista da .
A CATL informa em seu site ter 24 unidades de produção de baterias, sendo a grande maioria na China. Possui duas fábricas no exterior, uma na Alemanha e outra na Hungria.
Em 2025, a CATL reportou um lucro líquido de US$ 10,6 bilhões e uma receita operacional de US$ 62,4 bilhões.
Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 22.mai.2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.
