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Pesquisa identifica 32 candidaturas outsiders no Brasil de 2002 a 2022

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Pesquisa identifica 32 candidaturas outsiders no Brasil de 2002 a 2022


De 2002 a 2022, o Brasil teve 32 candidaturas presidenciais de outsiders, segundo uma pesquisa divulgada pela ReDem em março. Outsiders são nomes que concorreram, às vezes mais de uma vez, fora da rota típica dos grandes partidos e que mobilizaram um discurso contrário à ordem política vigente ou ao governo estabelecido. Eis a íntegra (PDF – 384 KB).

A ideia de que essas candidaturas antiestablishment representam uma força na política brasileira vem se disseminando na cobertura de imprensa, entre comentaristas políticos e em análises acadêmicas como sinal de mudança no padrão de disputa presidencial no país.

Porém, antes de considerar o surgimento ou o crescimento eleitoral de um candidato outsider como um sintoma de crise do nosso sistema político, é preciso analisar o padrão histórico dessas candidaturas. Foi isso o que fizemos. Ao analisar a votação entre 2002 e 2022, descobrimos que os outsiders não são um evento esporádico, nem tampouco são um sinal de mudança profunda no panorama político-eleitoral nacional. Ao contrário, são um padrão.

Nos 20 anos estudados, encontramos grande oscilação nesse tipo de candidaturas, resultante de condições conjunturais específicas. Mas alguns picos isolados passaram a ser lidos como tendência. Confundir eventos pontuais com trajetória ascendente é o principal equívoco das análises que projetam uma crise de representação permanente a partir de 2013.

“Pulp politics”

O cientista político norte-americano Glenn Richardson Jr. mostrou em “Pulp Politics: How Political Advertising Tells the Stories of American Politics (2008)” que a propaganda eleitoral norte-americana recorreu às convenções audiovisuais da cultura popular para narrar a política de forma simples. Nesse modelo, campanhas transformam adversários em vilões de horror, ameaçadores, enquanto os candidatos são apresentados como heróis de thriller, protagonistas capazes de restaurar a ordem. Richardson chamou esse fenômeno de pulp politics.

O argumento vale além dos Estados Unidos. Quando candidatos outsiders mobilizam uma linguagem de ruptura com o sistema, exploram escândalos de corrupção e apresentam a eleição como um momento de salvação coletiva, passam a operar dentro da mesma gramática narrativa. A disputa deixa de ser apresentada como parte do funcionamento rotineiro das instituições e assume a forma de um acontecimento extraordinário, marcado pelo confronto entre adversários retratados como malfeitores e candidatos que se apresentam como íntegros e confiáveis.

Esse enquadramento, característico da pulp politics, pode produzir picos eleitorais expressivos. O problema é que ele também tende a distorcer a interpretação posterior dos dados, transformando efeitos associados a uma conjuntura específica em sinais aparentes de uma tendência estrutural permanente.

No caso brasileiro, 2006 e 2018 são os exemplos mais claros desse mecanismo. Em 2006, Heloísa Helena, dissidente expulsa do PT, canalizou o descontentamento da esquerda com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e obteve quase 7% dos votos válidos.

Em 2018, o fenômeno foi mais complexo. João Amoêdo usou sua fortuna pessoal e um discurso liberal-tecnocrático para atrair eleitores desiludidos tanto com PT como com o PSDB, alcançando 2,5%.

Mas o caso mais emblemático foi o de Jair Bolsonaro (PL). Ele se apresentou como alguém de fora do “sistema”, apesar de ter uma longa trajetória institucional — 28 anos de mandato como deputado federal —, ainda que bastante obscura.

O que 2018 ofereceu foi uma janela conjuntural excepcional: a Operação Lava Jato trouxe a questão da corrupção para o centro do debate político e deslegitimou os principais partidos que haviam dominado a cena política desde os anos 1990. Não seria adequado, portanto, projetar as eleições de 2018 como destino, mas entendê-las como um evento grande e decisivo, porém não cumulativo.

Pico ou tendência?

Depois desse evento, consolidou-se uma leitura retrospectiva segundo a qual a vitória de Jair Bolsonaro teria coroado a escalada do voto antiestablishment. Como se a insatisfação com o sistema tivesse se acumulado ao longo de eleições sucessivas até transbordar naquele pleito.

A análise que fizemos da votação agregada das candidaturas classificadas como outsiders nas eleições presidenciais brasileiras entre 2002 e 2022, no entanto, não aponta nessa direção.

Essa leitura tem apelo porque oferece uma explicação unificada para um evento complexo e porque parece conversar com um clima internacional de contestação das elites políticas estabelecidas e de crise da representação. O problema é que ela confunde pico com tendência.

Em 4 das 6 eleições no período estudado, a votação agregada de todas as candidaturas outsiders ficou abaixo de 4%. No entanto, o valor agregado muda radicalmente dependendo da inclusão ou não de Bolsonaro. Com ele, o voto outsider alcança 52,5%; sem ele, cai para 6,5%, um valor próximo do pico de 2006 (7,1%).

Por isso o ano de 2018 molda a percepção coletiva mais recente. Porém, é um caso particularmente enganoso para inferir uma “trajetória”. Não se trata de negar que 2018 tenha sido um ponto de inflexão, mas há uma distinção básica a preservar: evento extremo não é tendência estrutural.

A tentação de transformar um pico em trajetória ascendente é precisamente o mecanismo pelo qual o mito da escalada antiestablishment se consolida. A série histórica sugere outra coisa: o voto em outsiders permanece baixo na maior parte do tempo e sobe de forma significativa apenas em conjunturas críticas, para depois recuar.

O padrão geral observado é mais próximo do que a literatura de ciência política chama de “equilíbrio pontuado”, conforme a definição de Baumgartner e Jones: longos períodos de estabilidade interrompidos por rupturas, seguidos de retração.

Essa ideia foi importada da biologia evolutiva: em vez de mudança lenta e contínua, há estabilidade longa e rupturas concentradas. Na maior parte do período (2002-2022), o voto em outsiders fica em níveis baixos. Depois do pico de 2018, o voto outsider retornou a patamares muito baixos em 2022 (0,7%), praticamente o mesmo valor do início da série (0,5%).

Perguntas necessárias

Quando a política é enquadrada pela gramática do pulp politics, as consequências aparecem de 2 modos. Normativamente, surgem respostas políticas desenhadas como se o país estivesse numa marcha inevitável para a antipolítica que tendem a errar o alvo. Analiticamente, faz mais sentido investigar as condições que abrem janelas conjunturais específicas para a escalada do voto antiestablishment, e por que elas se fecham rapidamente.

O mito da escalada antiestablishment no Brasil é, em parte, um erro de leitura estatística e, em parte, um efeito político dramático de 2018. A pergunta relevante que devemos nos fazer não é “por que o voto antiestablishment cresce”, mas por que ele quase sempre permanece marginal e quais condições excepcionais permitem que, ocasionalmente, um candidato outsider rompa o teto eleitoral que o sistema político normalmente impõe.


Este texto foi publicado originalmente pelo The Conversation, em 11 de maio de 2026, às 9h51. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.