A “Estrada da Vida” na Ucrânia, mesmo esburacada, repleta de veículos incendiados e coberta por redes para bloquear drones, faz jus ao seu nome.
Ela é uma “linha de vida” que reabastece as tropas ucranianas nas linhas de frente mais difíceis da guerra, às vezes por entrega robótica. O trecho de asfalto de Druzhkivka a Kostyantynivka é puramente uma questão de sobrevivência.
As tropas ucranianas, muitas vezes exaustas após meses encurraladas na mesma posição, movem-se quase exclusivamente a pé, passando pelos veículos queimados daqueles que optaram por tentar driblar os drones com velocidade, em vez de serem alvos menores.
Os drones agora dominam a guerra na Ucrânia, e a única proteção contra o fluxo interminável de ataques aéreos da Rússia é se esconder nas árvores, abatê-los ou, em última instância, esperar que eles escolham outro alvo maior – normalmente veículos ou equipamentos militares.
É uma mudança tecnológica que reconfigurou a guerra moderna e, pelo menos por enquanto, deu à Ucrânia uma margem de manobra contra um adversário muito maior.
Mas para as tropas que operam na chamada “zona de morte”, que se estende por quilômetros ao longo das linhas de frente, cada movimento em campo aberto representa um risco letal.
Uma equipe da CNN percorreu um pequeno trecho da estrada, supostamente mais segura, entre duas posições ucranianas, acompanhada por Kosta, Sasha e Bohdan, integrantes da 24ª Brigada Mecanizada das Forças Armadas da Ucrânia.
A caminhada, que deveria durar uma hora em cada sentido, transformou-se em um calvário de cinco horas, com pelo menos 14 ataques ou quase encontros com drones russos.
Equipe da CNN é perseguida por drones
O primeiro ataque acontece rapidamente, logo após a passagem de um raro par de tanques.
O zumbido dos drones acima, seguido pelos tiros, a mata e as casas danificadas ao redor ganham vida repentinamente com as tropas ucranianas escondidas, disparando contra o céu.
É um sinal para corrermos para um pátio, enquanto nossos colegas tentam identificar algum alvo para atirar, na névoa cinzenta e nublada acima.
Na estrada lá fora, Sasha e Kosta são mais ousados, atirando a céu aberto. E acertam o alvo: o baque da carga explosiva do drone ressoa no asfalto, a cerca de 150 metros de distância.
Precisamos continuar nos movendo, pois outros podem nos seguir.

A guerra com drones subverte as normas da linha de frente. Blindados são alvos prioritários e uma vulnerabilidade. Grupos de tropas são alvos. As redes de proteção que cobrem tantas estradas na região leste de Donbas – impedindo a passagem de drones – não são suas aliadas aqui, mas sim uma limitação de movimento.
Ao ouvir um drone, é preciso correr para a vegetação, onde é possível se esconder e eles não conseguem voar. Se você entrar nas redes de proteção, precisa encontrar — ou cortar — um buraco para chegar à mata.
Esquivar-se de drones também inverte o instinto humano de buscar segurança em grupo. É preciso se separar, correr uns dos outros, pois estar sozinho torna você menos interessante para um piloto de ataque russo.
Um alerta de rádio faz nossa equipe correr novamente para o campo, com o zumbido acima e tiros ecoando por toda parte.
Após uma hora, o zumbido onipresente do drone torna-se difícil de distinguir – será impressão sua ou imaginação? Seus sentidos não relaxam, mas é difícil manter a mesma preocupação com cada ruído do drone como nos primeiros minutos.
Nossos encontros com drones geralmente terminam com a explosão de um deles caindo perto de nós. Não sabemos quem o abateu, para onde estava indo ou se estava sozinho. Mas a necessidade de nos movermos elimina qualquer tempo para processar a informação.
Então, um drone voa bem acima de nossas cabeças. Os disparos de Sasha e Bohdan — rifles à distância e uma espingarda de perto — o derrubam.
As hélices danificadas zumbem sinistramente enquanto ele cai na estrada, fazendo com que nossos acompanhantes corram para se proteger.
O aparelho se choca contra o asfalto, sem explosão. Poderia ter sido um dispositivo de reconhecimento, mas estava circulando — um padrão típico de um ataque russo.
Sasha pega os destroços fumegantes e os joga na vegetação, liberando a estrada para qualquer pneu que se atreva a passar por ali.
Soldados exaustos na linha de frente
Passamos pelos destroços carbonizados de uma caminhonete, atingida dois dias antes, na qual um dos tenentes da unidade, Roman, foi morto.
Encontramos um grupo de soldados exaustos na linha de frente, emergindo de semanas de um inferno ainda maior – onde drones infestavam suas trincheiras com efeitos mortais, tropas russas lançavam ataques e a artilharia continuava a bombardear seus abrigos.
Eles parecem frágeis enquanto caminham, seus suprimentos carregados por um pequeno caminhão robótico, alguns cobrindo os rostos sujos com os braços para evitar a câmera.
Sasha e Bohdan param por 30 minutos em seu destino – outro bunker, a poucos minutos de carro de onde começamos – para tomar chá e água.
Lá dentro está Afina, o codinome de uma operadora técnica de 25 anos que ingressou no Exército antes da guerra e não esperava que ele se tornasse tão dependente de drones e robôs, tecnologia que a Ucrânia adotou às pressas para suprir uma grave crise de falta de soldados.
“Eu não esperava nada parecido com isso. É difícil. Com o tempo, você acaba se desgastando um pouco com tudo isso. Mas você se acostuma. Você percebe que precisa fazer isso”, relatou.
Emergimos para iniciar a árdua caminhada de volta, e outra sequência de tiros irrompe, abatendo vários drones que estavam à espreita.
Durante o retorno, diversos drones se chocam contra a estrada ao nosso redor, estilhaços tilintando, enquanto tentam atingir carros e veículos blindados em alta velocidade.
É implacável, exaustivo, mas, curiosamente, um momento em que a destreza e a rápida adaptação da Ucrânia lhe conferiram a vantagem – mantendo-se a pé, automatizando algumas tarefas, investindo fortemente em tecnologia e observando o inimigo desperdiçar seus recursos humanos em ataques terrestres ineficazes e horríveis.
Kiev pode não estar vencendo a guerra, mas parou de perder, e resistir em lugares como a Estrada da Vida pode ser suficiente para fazer a Rússia retroceder.
Por que Donetsk é ponto de discórdia para encerrar guerra na Ucrânia?
