A menos de cinco meses do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto enfrentam desgastes na imagem por episódios recentes.
Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta conter os danos do caso envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, apontado como beneficiado pelo roubo de pensões do INSS, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a lidar nas últimas semanas com o avanço das revelações sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Deflagrada pela PF (Polícia Federal) no ano passado, a Operação Sem Desconto revelou um esquema de desvios no repasse de benefícios pagos a aposentados e pensionistas do INSS. Após o avanço das investigações, o Congresso instalou uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) para acompanhar o caso e apurar a atuação de empresários, lobistas e agentes públicos envolvidos no esquema.
Desde o início do ano, o PL passou a apostar em uma estratégia de associar diretamente Lula às investigações envolvendo o filho. Em fevereiro, a CPMI aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha após menções de que ele poderia ter sido beneficiado pelo esquema investigado pela Polícia Federal. Antes da decisão do colegiado, o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), já havia determinado a quebra de sigilos.
Nos bastidores, o caso envolvendo Lulinha gerou preocupação no PT. Integrantes do partido passaram a avaliar que a oposição tentava reconstruir uma narrativa de corrupção ligada ao entorno familiar do presidente, resgatando um discurso explorado em eleições anteriores.
Em resposta, petistas passaram a investir em conteúdos para redes sociais comparando a postura de Lula diante das acusações contra o filho com a de Jair Bolsonaro (PL) nos episódios envolvendo Flávio Bolsonaro.
O presidente também tentou se blindar politicamente do caso. Lula afirmou publicamente que, “se tiver alguma coisa”, Lulinha terá que “pagar o preço”.
O movimento do PL não se restringiu ao caso do INSS. Nas últimas semanas, aliados de Flávio Bolsonaro tentavam associar o governo Lula ao escândalo do Banco Master, especialmente pelo fato de nomes ligados à esquerda aparecerem nas investigações envolvendo Daniel Vorcaro. Integrantes do PT da Bahia foram citados nas apurações, aumentando a pressão sobre o governo.
O caso, porém, acabou atingindo também figuras importantes do campo bolsonarista. Reportagens revelaram que investigados ligados ao Banco Master fizeram doações milionárias para campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022. Além disso, a Polícia Federal identificou referências a pagamentos mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil atribuídos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).
A situação ganhou nova dimensão após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro negocia um repasse de R$ 134 milhões diretamente com Vorcaro, dono do agora liquidado Banco Master, para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dias depois, veio à tona a informação de que Flávio se reuniu com Vorcaro após a prisão do ex-banqueiro em novembro de 2025, quando foi preso pela primeira vez, no âmbito da operação Compliance Zero. O pré-candidato do PL afirmou que a visita teria como objetivo colocar um “ponto final” nas negociações sobre o financiamento do longa.
O episódio provocou desconforto dentro do próprio PL, ampliando questionamentos internos e com alguns parlamentares do partido passando a admitir um temor de serem contaminados pela crise que cerca o senador. Alguns nomes chegaram a questionar, inclusive, a permanência de Flávio na corrida presidencial.
Embora muitos bolsonaristas tenham se empenhado em defender Flávio nas redes sociais, o entorno do senador prevê mais embates internos em caso de mais fatos que relacionem o filho mais velho de Jair Bolsonaro a Daniel Vorcaro. Há ainda menções ao risco de a crise afetar a capacidade do PL de eleger uma bancada numerosa no Congresso Nacional.
O desgaste coincidiu com pesquisas eleitoral divulgadas na última semana apontando uma queda de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto. Nos bastidores do partido, dirigentes passaram a demonstrar preocupação com o potencial eleitoral da crise e voltaram a discutir o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) como possível alternativa competitiva para a disputa presidencial.
As pesquisas eleitorais desta semana refletiram um desgaste da imagem de Flávio. A pesquisa Datafolha divulgada na última sexta-feira (22) mostra que Lula tem 47% das intenções de voto contra 43% de Flávio num eventual segundo turno na disputa pelo Planalto.
O cenário difere da pesquisa Datafolha divulgada no dia 13 de maio, que mostrava os dois candidatos numericamente empatados com 45% das intenções de voto, enquanto os que votariam em branco, nulo ou em nenhum dos dois somariam 9%.

